Como mencionei na parte 1 da nossa História do Tempo, o magnífico relógio de Su Sung acabou destruído e, com o tempo, completamente esquecido pelos chineses.
Naquela época, o conhecimento das estações e a elaboração de um calendário preciso significavam poder. Era com base neles que o imperador tomava decisões e que se regulava o cotidiano da vida. Por isso, o conhecimento de astronomia e o uso das máquinas de medição de tempo eram reservadas ao soberano e ao círculo restrito de seus astrônomos.
Esse domínio do saber contribuiu para uma transmissão desigual do conhecimento para as gerações posteriores, se perdendo repetidamente ao longo dos séculos.

A chegada dos portugueses ao Oriente

Embora os portugueses tenham alcançado a China já em 1513, é em Macau que nossa história ganha corpo. Em 1553, estabeleceram-se na região e, poucos anos depois, em 1557, obtiveram permissão para criar pontos de comércio — embora regulado pelos chineses — no intuito de transformar a região em uma porta de entrada não só para a China, mas também para o Japão.

Os católicos enfrentaram grandes dificuldades para disseminar sua religião na China. A estratégia de evangelizar o imperador e, através da sua conversão, conseguir a do povo, se mostrava impossível. Sequer conseguiam ter acesso ao governante — em 1573, inclusive, uma muralha foi erguida para isolar os europeus do restante da ilha. Como então cumpririam sua missão?
É neste cenário que surgem figuras extremamente importantes: Michele Ruggieri e, principalmente, Matteo Ricci.

Matteo Ricci: o missionário e os seus presentes

Nascido na Itália em 6 de outubro de 1552, o jovem Matteo Ricci, aos 25 anos, se voluntariou para servir como missionário nas Índias Orientais. Após um período na Índia, chegou a Macau em 1582, com o objetivo de estudar a língua chinesa e abrir portas para a evangelização dos chineses, que na época eram governados pela dinastia Ming.
Ele se dedicou tanto ao estudo da língua que em menos de um ano já conseguia se comunicar com os nativos com facilidade. Juntamente com Ruggieri, criou o primeiro dicionário português-chinês, apresentando assim a romanização da língua chinesa falada naquela época.

Retrato de Matteo Ricci, pintado em 1610, por Emmanuel Pereira (Yu Wen-hui). A idade da morte está incorreta: Ricci morreu perto de completar 58 anos. Imagem: “Ricciportrait”, disponível em Wikimedia Commons.
Primeira página do dicionário português-chinês, criado por Matteo Ricci e Michele Ruggieri. Imagem: “Ricci-Ruggieri-Portuguese-Chinese-dictionary-page-1”, disponível em Wikimedia Commons.

Ricci era extremamente inteligente e, além de um bom teólogo, era um grande astrônomo. Ele trouxe aos chineses previsões muito mais precisas dos movimentos dos corpos celestes, o que contribuiu para a construção de um calendário anual com menos erros do que o utilizado pelos astrônomos chineses, algo essencial para o imperador que, como mencionado acima, baseava suas decisões e ações nele — um símbolo de poder e domínio.
A combinação desses atributos fez de Ricci um missionário incomum, conquistando o respeito e a admiração dos nativos.

Mas foi através de algo muito mais tangível que Ricci conquistou ainda mais a atenção de seus anfitriões, elevando seu prestígio e ultrapassando as fronteiras de Macau: os presentes. Entre eles, os relógios. O pesquisador Zhang Xiping descreve como essa aproximação aos missionários se deu pela curiosidade em relação aos seus objetos “estranhos”:

(…) relógios e prismas triangulares eram mostrados pelos jesuítas e jamais tinham sido vistos [pelos chineses]. (…) Em Nanjing, muitos oficiais e letrados foram visitar Matteo Ricci assim que souberam que ele havia levado coisas estranhas para cidade.

Os presentes que mais encantaram os chineses foram os “relógios que tocavam sozinhos”, um feito mecânico que, para eles, parecia mágico. Esses dispositivos, que além de marcar o tempo — não que fossem mais precisos do que os usados na China — eram capazes de indicar sonoramente as horas e exibir e mover pequenos autômatos, fascinaram o imperador e sua corte quando Ricci finalmente chegou a capital Pequim em 1601.

As críticas aos métodos de Ricci

Os métodos de Ricci para se aproximar dos chineses e disseminar a fé católica não ficaram imunes a críticas dentro da própria igreja.
Ele e os demais jesuítas adotaram as mesmas vestes de seda usadas pela elite chinesa, majoritariamente confucionista, além de deixarem crescer o cabelo e a barba, seguindo o costume dos letrados. Mesmo com o apoio de Alessandro Valignano, supervisor das missões na Ásia, essa conduta gerou críticas, principalmente por parte dos franciscanos.
Em um trecho de sua obra Apologia de la Compañia de Jesús de Japón y China, Valignano rebateu as críticas direcionadas ao estilo de missionação dos jesuítas na China:

(…) entendemos que os Padres, fazendo ofício de homens letrados, teriam mais fácil entrada com todos e poderiam melhor e com mais autoridade divulgar nossa santa lei para os chineses, e não se deve reprender e nem ironizar este método (…)

Outras críticas foram direcionadas ao fato de os jesuítas não enfatizarem a imagem de Jesus crucificado e permitirem a prática de ritos supersticiosos pelos chineses convertidos, entre outras.
Todo esse conflito afetou profundamente o catolicismo na China. O método adotado por Ricci e pelos jesuítas foi condenado por dois Papas no século XVIII. Essas condenações só foram revogadas no século XX, pelo Papa Pio XII.

Apesar das críticas, o método de Ricci foi um grande sucesso, levando ao batismo de mais de 2500 pessoas. Além disso, o respeito e a admiração pelos ensinamentos de Confúcio e pela cultura chinesa, assim como as inovações que trouxe e os ensinamentos que compartilhou com os intelectuais chineses, garantiram-lhe uma posição de grande respeito dentro da sociedade asiática. Por isso, ao falecer em 1610, Ricci foi sepultado na capital Pequim, após autorização do Imperador — um raro privilégio na época.

Lápide de Matteo Ricci no terreno do Colégio Administrativo de Pequim. Imagem: “Tomb of Matteo Ricci”, disponível em Wikimedia Commons.

A China e a relojoaria: desprezo e curiosidade

Voltando nossa atenção aos relógios, surge uma pergunta crucial: por que a China, que alcançou seu auge na medição do tempo com Su Sung mas falhou em evoluir essa tecnologia, agora com relógios portáteis trazidos pelos jesuítas, não evoluiu essa técnica europeia, revolucionando assim sua própria cultura relojoeira? A resposta para essa questão, provavelmente, se encontra profundamente enraizada na cultura, filosofia e religião chinesa.

Podemos começar abordando um fato já discutido anteriormente: apesar das datas do calendário serem extremamente importantes, o cotidiano da vida e do trabalho na China não era organizado com base nas horas e minutos. O interesse pela hora exata simplesmente não era relevante. Para a grande maioria da população, os relógios trazidos pelos jesuítas não passavam de uma curiosidade prazerosa, totalmente dispensáveis no dia a dia. Os “relógios que tocavam sozinhos” se tornaram um luxo divertido, mais um brinquedo caro — e os chineses adoravam brinquedos — entre outros dispositivos europeus que foram tratados como triviais.
No entanto, a indiferença pela hora exata e a consideração dos relógios como meras curiosidades encantadoras certamente não foram os únicos motivos para a China não ter iniciado sua “revolução relojoeira”.

Um fator crucial para a rejeição dos relógios europeus se encontra no fato de que ele foi visto como um ataque ao orgulho, à vaidade e à religião chinesa.
O termo “Império do Meio”, usado para designá-los, refletia a percepção da China como centro do mundo. Eles se consideravam como a civilização mais avançada — e, de fato, possuíam grande riqueza e uma cultura sofisticada — e o seu imperador era o governante do “centro do universo”, enquanto outros povos eram vistos como bárbaros. Quando Ricci chegou à China trazendo um conhecimento superior e mercadorias nunca antes vistas, isso afetou profundamente a percepção de mundo dos chineses. Afinal, mesmo Ricci, com toda sua gentileza e respeito, chegou ao solo chinês como um “bárbaro”.

Para os jesuítas e, em grande parte, para a cultura cristã da época, a ciência era vista como uma manifestação do poder divino. E apesar de Ricci e seus sucessores tentarem minimizar as tensões ao apresentar a ciência e a tecnologia ocidentais de forma que não fosse vista como uma afronta às crenças tradicionais chinesas, sendo extremamente diplomáticos e flexíveis em sua abordagem (o que, como vimos, gerou críticas), para os chineses, a ciência ocidental não podia ser dissociada de uma visão de mundo religiosa. O próprio conhecimento científico e os instrumentos como os relógios eram associados à superioridade da fé cristã.

A resposta dos chineses para essas questões foi o que os afastou de uma revolução relojoeira: o desprezo pelos relógios. Já em meados do século XVII alguns chineses começaram a menosprezar os relógios europeus, negando sua inovação. Alegavam que escritores de dinastias passadas já discutiam sobre componentes semelhantes aos usados nesses relógios. Também depreciaram sua construção, considerando-a difícil de fabricar, cara e sujeita a quebras frequentes. Criticaram até mesmo o mecanismo que provia força para o funcionamento do relógio, argumentando que, por serem movidos por mola cuja força diminuía conforme se desenrolava, o relógio perderia precisão (provavelmente não tinham conhecimento sobre a fusée com corrente, que amenizava esse problema).
Esse sentimento ajudou a transformar os relógios, como vimos, em meras trivialidades e luxos desnecessários.

K’ang-hsi: a tentativa imperial de recriar a relojoaria europeia

Apesar de toda essa rejeição inicial dos relógios europeus por parte da China, é importante ressaltar que, mesmo assim, os chineses tentaram imitar esses mecanismos.
Por volta do início do século XVIII, o atual imperador K’ang-hsi mandou criar uma oficina no palácio para a fabricação de relógios, da qual se orgulhou muito. Ele escreveu que havia aprendido com os europeus como fabricar as “molas que causavam muitos problemas anteriormente” e que mandou fazer milhares de relógios, todos com precisão. Contudo, sua intenção nunca foi conceder esses objetos para o povo, mas sim acumulá-los para os príncipes e cortesãos.

Retrato do imperador K’ang-hsi (Kangxi). Imagem: “Portrait of the Kangxi Emperor in Court Dress”, disponível em Wkimedia Commons.

Mesmo após aprenderem a arte relojoeira, os chineses nunca desenvolveram um estilo próprio de relógios — ao contrário dos japoneses — e se contentaram basicamente em realizar consertos e cópias dos relógios europeus. A oficina imperial de K’ang-hsi nunca alcançou a qualidade dos melhores padrões europeus, e sempre que a corte necessitava de relógios mais elaborados e precisos, recorria ao Ocidente.


Os relógios europeus, por serem portáteis, forneciam o conhecimento privado do tempo. Mas como tornar isso relevante em uma sociedade cujos bens, inclusive o tempo, pertenciam ao imperador?

LANDES, David S. Revolution in Time: Clocks and the Making of the Modern World. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983.

PALAZZO, Carmen Lícia. Matteo Ricci: um jesuíta ao encontro de Confúcio. 22º Simpósio Nacional de História, 2017. Disponível em: XXIX Simpósio Nacional de História – Anais eletrônicos


10 respostas para “História do Tempo – parte 2: A rejeição chinesa aos relógios do Ocidente”

  1. Avatar de Elaine

    Que conteúdo riquíssimo! Parabéns!

    1. Avatar de Guilherme Guimarães

      Muito obrigado! Fico contente que tenha gostado do conteúdo. Espero sempre trazer informações ricas e interessantes para vocês. 😊

    2. Avatar de Moisés

      Oi Guilherme! O que não ficou claro para mim é: após o desaparecimento do notável relógio a água de Su Sung, e com a “decadência” tecnológica dos chineses nesta área, quais dispositivos eles usavam para medir o tempo e manter o poder imperial? Seria tudo feito pelos astrônomos?

      1. Avatar de Guilherme Guimarães

        Olá, Moisés! Obrigado pela pergunta…
        Em primeiro lugar, um detalhe muito importante que mencionei nos dois textos é que não havia grande interesse pela hora exata. Isso não significa que os chineses fossem indiferentes à medição do tempo. Há indícios de que até mesmo nas aldeias havia clepsidras, mas não sabemos se esses dispositivos eram utilizados para marcar a hora exata ou apenas a passagem do tempo (como uma ampulheta). Mesmo os cidadãos comuns possuíam dispositivos próprios para saber a hora aproximada, como relógios de fogo (que queimavam gradualmente um material para medir o tempo de forma aproximada) e os relógios de sol.
        Esses dispositivos continuaram sendo utilizados pela população em geral mesmo após a criação da torre de Su Sung. Vale lembrar que, mesmo essas torres, como a de Su Sung, não eram destinadas principalmente à marcação das horas, mas sim ao estudo dos movimentos dos corpos celestes.
        Os astrônomos/astrólogos imperiais estavam mais preocupados com a precisão, mas uma margem de erro considerável era tolerada. Se o objetivo era a criação de calendários, o que várias horas de erro influenciariam? Eles continuaram utilizando mecanismos como a esfera armilar após Su Sung, inclusive automatizadas, para as observações astronômicas. E caso encontrassem erros, a esfera era ajustada e o calendário corrigido.
        O próprio David S. Landes menciona em seu livro Revolution in Time, em relação aos calendários: “(…) O importante era a aparência de conhecimento, devidamente certificada ao governante pelos astrônomos da corte e proclamada por ele ao povo. O critério, em outras palavras, era político e não científico.”
        Espero ter esclarecido sua dúvida!

        1. Avatar de Moisés

          Oi Guilherme! Sim a resposta foi bem completa, muito obrigado pelo esclarecimento!

          1. Avatar de Guilherme Guimarães

            Olá, Moisés. Fico feliz que a resposta tenha sido útil! Qualquer outra dúvida que surgir, fico à disposição para ajudar.

  2. Avatar de William Chimello

    Que história interessante… a China poderia ter dado um rumo mais eloquente na criação de seus próprios relógios. Orgulho demasiado não é saudável a ninguém, quanto mais a uma nação.
    Obrigado, Gui… mais uma curiosidade aprendida.

    1. Avatar de Guilherme Guimarães

      Fico feliz que tenha achado interessante! Realmente, a história da China com os relógios traz uma reflexão sobre como o orgulho pode influenciar até mesmo o desenvolvimento de novas tecnologias. É fascinante ver como as decisões culturais e políticas moldam a história. Obrigado por compartilhar sua visão!

  3. Avatar de Anderson Alexandre

    Magnífico texto!

    1. Avatar de Guilherme Guimarães

      Muito obrigado, Anderson! Feliz que tenha gostado… Fica de olho que vem mais por aí!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *