Antes de tudo, vale esclarecer que existe uma distinção entre cronômetro e cronógrafo. Isso confunde muita gente.
O que no nosso cotidiano normalmente chamamos de cronômetro, na verdade, não o é. Quando queremos marcar um intervalo de tempo decorrido entre dois eventos, pressionando um botão para iniciar e parar a contagem, o que usamos é um cronógrafo. Cronômetro, por sua vez, é o termo utilizado para designar um relógio de alta precisão. São conceitos distintos, e entender essa diferença é essencial para o que vem a seguir.


Precisão. Poucos termos são tão frequentemente debatidos como este no universo da relojoaria. Entre fabricantes, estudiosos e entusiastas, a palavra costuma aparecer quase como sinônimo de excelência na construção dos movimentos.
Contudo, como definir se um relógio é, de fato, preciso? Existe algum parâmetro objetivo que nos permita responder a essa pergunta? Ou o uso tão recorrente do termo não passa, em parte, de uma estratégia de marketing bem embalada pelas marcas?
Muito antes das certificações modernas, a busca por essa resposta levou à criação dos concursos de observatório. Esta primeira parte foca nessas competições técnicas que, por mais de um século, submeteram os relógios mais precisos sob critérios rigorosos.

A busca pela precisão e o problema da longitude

É evidente que a busca pela criação de relógios mais precisos não se dá somente na modernidade. Para quem acompanha nossa série sobre a “História do Tempo” (leia aqui) pode ver como, ainda na Idade Média, com o desenvolvimento da sociedade e de suas atividades, a precisão na medição do tempo tornava-se cada vez mais necessária. Entretanto, é na modernidade que a história da relojoaria de alta precisão tem um ponto de virada claro. Isso ocorre no século XVIII, quando a medição exata do tempo era o maior problema não resolvido da navegação e um dos principais desafios científicos da época.

Os navegadores já conseguiam determinar a latitude, ou seja, a posição norte-sul em relação ao equador, mesmo antes do século XVIII. O método mais comum era a observação do sol ao meio-dia (quando ele atinge o ponto mais alto no céu) e, com isso, aplicar algumas relações geométricas para determinar a latitude com uma precisão razoável. O grande problema era determinar a longitude.
Explico: evidentemente, a Terra gira 360 graus a cada 24 horas, ou seja, 15 graus a cada hora. Portanto, para definir sua posição no eixo leste-oeste, o navegador precisaria de um relógio ajustado com o horário do local de partida e compará-lo com o horário atual de sua posição, obtido pela posição do sol. Logo, uma diferença de 1 hora entre os dois horários, equivale a 15 graus de longitude. Caso o relógio que fora ajustado com o horário do local de partida atrasasse 1 hora, por exemplo, isso causaria um erro de até 1.600 km na posição do navegador no globo terrestre (quanto mais próximo dos polos, menor seria esse erro).

O grande desafio era criar um relógio que se mantivesse preciso, mesmo enfrentando as movimentações do navio, as diferenças de temperatura e umidade e as diferenças de gravidade em diferentes latitudes. Isaac Newton, em resposta a um comitê parlamentar britânico criado para buscar soluções para esse desafio, disse que um relógio capaz de manter tamanha exatidão provavelmente não seria inventado.
O problema era tão crítico que o Parlamento Britânico criou em 1714 o Longitude Act, uma lei que oferecia um prêmio de £ 20 mil a quem conseguisse resolvê-lo com uma exatidão de meio grau, o que significava que o relógio não poderia atrasar ou adiantar mais do que 3 segundos ao dia.
O prêmio de £ 20 mil, corrigido apenas pela inflação, equivale a aproximadamente £ 4 milhões hoje — mas se a correção for feita com base no salário médio da época, esse número pode chegar a £ 57 milhões.

Para os cálculos financeiros, utilizei o site MeasuringWorth.

John Harrison, nascido em 1693, após décadas de trabalho, concluiu em 1759 seu quarto relógio, o cronômetro chamado de H4, que foi capaz de atingir tal precisão e solucionar o problema da longitude.

Em sua viagem de teste, o H4 partiu de Portsmouth, Inglaterra, em novembro de 1761 rumo a Port Royal, na Jamaica, chegando em janeiro de 1762. Após 81 dias no mar, o relógio havia atrasado apenas 5 segundos.

Abordaremos com mais detalhes a história de Harrison e o problema da longitude em outro artigo.

Os Observatórios e os Concursos de Cronômetros

Uma vez que os mecanismos alcançaram precisão suficiente para auxiliar as viagens marítimas, os observatórios astronômicos, a partir do século XIX, assumiram um papel central na avaliação dos relógios.
O pioneiro foi o Observatório de Greenwich, na Inglaterra, cujo envolvimento com cronômetros remonta a 1766, quando o chamado Conselho da Longitude determinou que o H4 de Harrison fosse testado ali.

Imagem 1. O Observatório Real Greenwich do Sudeste. Artista desconhecido. Data: cerca de 1770. Disponível em: Royal Museums Greenwich.

Em 1821, o Observatório tornou-se responsável pelos testes dos cronômetros usados pela Marinha Real britânica.

À medida que a relojoaria evoluía, os cronômetros deixaram de ser apenas instrumentos de navegação para se tornarem demonstrações máximas de precisão. Os observatórios passaram a desenvolver métodos cada vez mais rigorosos e padronizados de avaliação. Foi nesse contexto que surgiram os Concursos de Observatório, e as bases dessa história começam muito antes do que a maioria das fontes sugere.

Ainda de forma bastante rudimentar e sem ligação direta com um observatório, o primeiro concurso formal voltado à avaliação da precisão dos relógios aconteceu em Genebra, em 1790, organizado pela Société des Arts. Foi chamado de Concours de Réglage — Concurso de Regulagem, em tradução literal.
Publicado em janeiro de 1790, o programa definia que os relógios deveriam ser “comuns” (o escapamento de verge era exigido) e construídos em Genebra. O prêmio para o vencedor era de 20 louis — de forma bem aproximada, seria o equivalente a quase 1 ano de salário para um trabalhador comum —, 10 louis para o segundo lugar (1ᵉʳ accessit) e 8 louis para o terceiro (2ᵐᵉ accessit). Foram depositados 19 relógios para o concurso. Ao que tudo indica, tratava-se de relógios de bolso.
Entre dezembro de 1790 e janeiro de 1791, eles foram testados em 3 posições diferentes: 1 mês em uso cotidiano (au porter); 15 dias na posição vertical (pendues); e 15 dias na posição horizontal (plates). Ao final do concurso, a comissão considerou que nenhum relógio merecia os prêmios, mas atribuiu medalhas aos três melhores desempenhos.

Independentemente dos resultados, o que chama a atenção é a metodologia. Embora não fosse um concurso de cronômetros no sentido técnico que o termo viria a ter, já em 1790 existia a preocupação em avaliar um relógio em múltiplas posições.

Clique aqui para ler a legenda

Imagem 2. Atas das Assembleias Gerais da Société des Arts (manuscrito). / SETA AZUL – Segunda-feira, 13 de dezembro de 1790 / SETA VERMELHA – “Relatório da comissão sobre o exame dos relógios que concorrem ao prêmio”. O Sr. Senebier relatou que haviam recebido 19 relógios para o prêmio de relojoaria, e que propunha observá-los com o Sr. Lefort e Clavel, um mês em uso [no bolso], 15 dias na vertical, e 15 dias na horizontal. / Disponível em: Archives Société des Arts, págs. 32-33. / Editada

Clique aqui para ler a legenda

Imagem 3. Atas das Assembleias Gerais da Société des Arts (manuscrito). / SETA AZUL – Segunda-feira, 28 de março de 1791 / SETA VERMELHA – “Relatório da comissão sobre o exame dos relógios enviados ao Concurso”. O Sr. Senebier apresentou o relatório da Comissão nomeada para examinar os relógios que foram dados ao concurso, com diferentes peças relativas a este relatório. A comissão estima que nenhum dos relógios examinados merece o prêmio nem os accessits. Mas ela propõe dar duas medalhas aos Nºs 12 e 17 por terem sido os mais regulares na horizontal e vertical, e uma medalha ao Nº 6 por ter variado da maneira mais regular. Foi decidido que se anunciaria à Assembleia Geral que a Sociedade não pôde dar o prêmio, porque se supõe que os artistas não haviam compreendido bem o programa, e que a brevidade do tempo não lhes havia permitido regular seus relógios com toda a perfeição de que seriam suscetíveis. Concluiu-se ainda que se faria uma menção honrosa aos Nºs 6, 12 e 17. / Disponível em: Archives Société des Arts, págs. 47-48. / Editada

Imagem 4. Data: 1792.

Em 23 de maio de 1791, a Société des Arts anuncia um novo concurso, com critérios ligeiramente ampliados. Os desvios de marcha permitidos foram definidos em: 1 minuto em 24 horas quando o relógio está nas posições vertical e horizontal; e 2 minutos em 24 horas quando o relógio está em uso (au porter). 3 peças das 16 apresentadas receberam recompensas. Como mostra a imagem 4, um aviso do Comitê de 1792, o prêmio principal foi concedido ao Sr. J.-P. Mérienne.
Os anos turbulentos gerados pela Revolução Francesa no final do século interromperam as competições por décadas. O concurso seguinte só seria anunciado no final de 1816, após o restabelecimento da independência de Genebra.

Nesse caso, duas categorias foram definidas, com prêmios diferentes. A primeira exigia um relógio cujas variações de marcha não excedessem 3 segundos ao dia, em qualquer uma das 3 posições já utilizadas nos testes anteriores, e que fosse observado em diferentes temperaturas. O prêmio seria de 800 florins (equivalente a 400 dias de trabalho de um operário comum, aproximadamente).
A segunda categoria se destinava a relógios comuns, produzidos no cantão de Genebra e com escapamento de verge. O prêmio era de 400 florins.

O primeiro prêmio destinava-se claramente a relógios de alta precisão, enquanto o segundo, assim como em 1790 e 1792, era voltado a relógios mais simples.

Nenhum dos 6 relógios enviados para concorrer na segunda categoria foi suficientemente regular para receber o prêmio, e o concurso foi prorrogado até junho de 1818. Dessa vez, 11 relógios foram apresentados e o Sr. Chenevière-Richard recebeu a premiação de 400 florins.
A primeira categoria foi adiada diversas vezes, até que em dezembro de 1818, apenas 2 relógios foram depositados para o teste. Aqui temos um breve lampejo do que seriam os concursos de cronômetro ao longo dos anos.
As provas duraram 38 dias. Todos os dias, no mesmo horário, os relógios eram comparados ao pêndulo de referência do observatório. Além dos testes posicionais, as peças eram observadas sob diferentes temperaturas — os testes percorriam uma amplitude térmica de 31°C (25° na escala Réaumur), submetendo os relógios a temperaturas frias, médias e elevadas.
Em março de 1819, a comissão informou que um dos relógios havia permanecido dentro dos parâmetros fixados, e seu construtor, Antoine Tavan, recebeu o prêmio de 800 florins. Além de um relojoeiro notável, Tavan foi um dos criadores da Fondation École de Blanc, instituição que mais tarde viria a se tornar a grande Escola de Relojoaria de Genebra.

Em meados do século XIX, a relação entre o Observatório de Genebra e a relojoaria de precisão começou a mudar. Mais do que concursos esporádicos, o Observatório passou gradualmente a oferecer serviços regulares de observação dos relógios.
Esse movimento já aparece em 1842, apesar de ganhar força somente a partir de 1850, quando o Observatório passou a receber relógios de precisão depositados por fabricantes estabelecidos no cantão de Genebra. As peças eram comparadas diariamente ao pêndulo do Observatório e os dados de marcha eram registrados e entregues aos fabricantes. Diferentemente dos concursos anteriores, porém, não existia um protocolo padronizado. Os fabricantes tinham liberdade para escolher quanto tempo deixar seus relógios em observação, quais testes realizar e até mesmo retirá-los temporariamente para ajustes.
O objetivo inicial era oferecer um serviço técnico de acompanhamento da marcha dos relógios de precisão produzidos em Genebra. Entretanto, essa liberdade excessiva impedia comparações consistentes e dificultava avaliar a evolução do desempenho dos relógios ao longo do tempo. É o que comentou Émile Plantamour, diretor do Observatório, ao Conselho de Estado em 1875:

“É extremamente difícil formular uma opinião sobre os progressos realizados de ano em ano na fabricação da relojoaria de precisão em Genebra, porque a liberdade completa deixada aos fabricantes quanto à natureza e à duração das provas às quais seus cronômetros são submetidos não permite obter resultados comparáveis entre si, seja de um ano para outro, seja na mesma época entre diferentes fabricantes.”

Imagem 5. Gravura da fachada sul do Observatório de Neuchâtel. Data: década de 1860. Disponível em: Images du Patrimoine.

Enquanto em Genebra os “serviços cronométricos” ainda funcionavam de maneira bastante flexível, o Observatório de Neuchâtel desenvolveu desde sua fundação um sistema muito mais estruturado de observação e classificação dos relógios.

Fundado em 1858 com o objetivo explícito de favorecer o desenvolvimento da relojoaria de alta precisão no cantão, o Observatório iniciou seus serviços cronométricos regulares já em 1860. Desde o começo, o regulamento já distinguia diferentes categorias de relógios. Os cronômetros marítimos eram observados durante dois meses, enquanto os cronômetros de bolso eram subdivididos em duas classes. Na 1ª classe os relógios eram observados durante 1 mês, sendo 15 dias na horizontal e 15 dias na vertical, assim como 1 dia na estufa. Para a 2ª classe, destinada a relógios mais simples, os testes duravam apenas 15 dias na posição horizontal e à temperatura ambiente.
Em dezembro de 1865, o cantão de Neuchâtel instituiu oficialmente um concurso anual com prêmios para os melhores cronômetros marítimos e cronômetros de bolso, testados durante 1 mês.

Após cerca de dez anos de funcionamento, surgiu a ideia de acrescentar para os relógios de bolso uma 3ª classe, com provas mais completas e com duração de seis semanas. O diretor do Observatório, Adolphe Hirsch, apoiou a ideia e em 1872 um novo regulamento foi aprovado pelo Conselho de Estado de Neuchâtel, em um contexto favorável criado pelo primeiro concurso formal promovido em Genebra pela Société des Arts nesse mesmo ano.

Esclarecendo: esse novo regulamento, que perdurou até 1893 — com uma breve modificação introduzida em 1876, estabelecendo que fabricantes de outros cantões suíços e do exterior poderiam participar, e não apenas fabricantes de Neuchâtel — definia quatro categorias:

Categoria A – cronômetros marítmos: 2 meses de teste, à temperatura ambiente, na estufa e em câmara fria (glacière).

Categoria B – cronômetros de bolso de escapamento livre ou de âncora, observados em 5 posições diferentes durante seis semanas:
• 2 semanas na posição horizontal, mostrador para cima, incluindo 2 dias na estufa e 1 dia na glacière;
• 2 semanas na posição vertical, coroa para cima;
• 2 dias na posição vertical, coroa para esquerda;
• 2 dias na posição vertical, coroa para direita;
• 2 dias na posição horizontal, mostrador para baixo;
• 8 dias na posição horizontal, mostrador para cima.

Categoria C – cronômetros de bolso que deveriam permanecer apenas 1 mês em observação, sendo 15 dias na horizontal e 15 dias na vertical, assim como na estufa e na glacière.

Categoria D – relógios de bolso mais simples, testados na posição horizontal e à temperatura ambiente durante 15 dias.

Os cronômetros aprovados pelo Observatório receberiam o chamado Boletim de Marcha (Bulletin de Marche) caso se enquadrassem em alguns critérios preestabelecidos. Um detalhe importante — e que talvez confunda principalmente aqueles já familiarizados com as certificações modernas de cronômetro — é que o Boletim ainda não certificava oficialmente a peça como um cronômetro, mas apenas registrava que o relógio havia sido observado e teve sua marcha documentada e oficializada pelo Observatório.
Focando especificamente na Categoria B, os critérios para o recebimento do Boletim eram:

1. Variação média diária não superior a 0,5 segundo;
2. A variação para 1 grau de temperatura não deve ultrapassar 0,2 segundo e a peça deve retomar, após a estufa, sua marcha precedente com precisão de 1,5 segundo;
3. A variação da posição horizontal para a posição vertical deve permanecer abaixo de 3 segundos;
4. A variação da posição vertical (coroa para cima) para as duas outras posições verticais não deve ultrapassar 5 segundos;
5. A variação entre as duas posições horizontais deve permanecer abaixo de 2 segundos;
6. A diferença entre as marchas médias da primeira e da última semana não deve ultrapassar 3 segundos.

Em outras palavras, os critérios verificavam se a marcha do relógio permanecia estável diante de mudanças de posição, temperatura e ao longo do tempo.

Para a Categoria B, os três melhores cronômetros recebiam prêmios de 130, 120 e 110 francos, respectivamente. Um detalhe importante é que apenas fabricantes de Neuchâtel poderiam concorrer aos prêmios. Os de outros cantões ou do exterior receberiam apenas o bulletin de Marche, se aprovados.

Imagem 6. Data: 1894.

A tabela da imagem 6, extraída do livro publicado em 1894 por Raoul Gautier, diretor do Observatório de Genebra, mostra a classificação dos cronômetros e relógios que obtiveram Boletins de Marcha no Observatório de Neuchâtel, segundo a categoria na qual foram depositados, de 1860 a 1893.

Em Genebra, os concursos anuais formais começaram em 1872, organizados pela Classe d’Industrie et de Commerce da Société des Arts. Diferentemente dos antigos concursos do fim do século XVIII, agora existia uma tentativa clara de criar critérios técnicos comparáveis entre diferentes peças. O diretor do Observatório de Genebra, Émile Plantamour, presidia o júri desde o início e se tornaria a principal figura por trás da evolução dos regulamentos.
O programa do primeiro concurso já exigia que os relógios respeitassem limites bastante rígidos:

1. Variação média diária não superior a 1 segundo;
2. Variação média diária por 1 grau de temperatura não deve ultrapassar 0,2 segundo e a peça deve retomar a mesma marcha, com precisão de 0,5 segundo, após sofrer a prova de temperatura;
3. A variação média diária da posição horizontal para a posição vertical deve permanecer abaixo de 3 segundos e retomar o mesmo valor de marcha, com precisão de 0,5 segundo.
Também se observava se o relógio mantinha uma marcha consistente entre o início e o fim da descarga da mola principal.

As provas duravam 45 dias. Os relógios eram observados por 15 dias na posição horizontal à temperatura ambiente; 15 dias na posição vertical à temperatura ambiente; e 15 dias na posição horizontal para as provas térmicas, sendo 7 dias à temperatura ambiente; 1 dia na estufa a até 35°C; e 7 dias novamente à temperatura ambiente.

Os resultados eram transformados em uma pontuação máxima de 350 pontos, distribuídos entre 5 critérios: 100 pontos para a variação média de marcha diária; 50 pontos para a variação por temperatura; 100 pontos para as variações de marcha entre posições horizontal à vertical; 50 pontos para a retomada de marcha após mudança de posição; e 50 pontos para a retomada de marcha após a prova térmica.

30 peças participaram desse primeiro concurso, e os resultados foram considerados bastante satisfatórios para a época.
Embora o regulamento previsse a distribuição de ao menos quatro prêmios somando 400 francos, o júri decidiu não subdividir a soma. O valor integral foi concedido ao relógio n° 25 de J.-M. Badollet & Cie, que alcançou 267,9 pontos.

Os concursos seguintes levaram Plantamour a concluir que os testes ainda eram insuficientes para avaliar completamente o comportamento dos relógios de alta precisão. Em outubro de 1874, um novo regulamento foi elaborado e aprovado pelo Conselho de Estado de Genebra. O próprio Plantamour descreveu as mudanças como “très heureuses” — “muito felizes”.
O novo sistema ampliava a complexidade dos testes. A duração total passou de 45 para 51 dias, divididos em 9 períodos distintos. Pela primeira vez em Genebra, os relógios eram observados em um número muito maior de posições, assim como em Neuchâtel, aproximando os testes das condições reais de uso.
O esquema completo das provas ficou estabelecido da seguinte maneira:

PeríodoDuraçãoPosiçãoTemperatura
7 diasVertical, coroa para cimaAmbiente
7 diasVertical, coroa para direitaAmbiente
7 diasVertical, coroa para baixoAmbiente
7 diasVertical, coroa para esquerdaAmbiente
7 diasHorizontal, mostrador para baixoAmbiente
1 diaHorizontal, na estufa30°C a 35°C
1 diaHorizontal, na glacière0°C a 5°C
7 diasHorizontalAmbiente
7 diasVertical, coroa para cimaAmbiente

A pontuação também sofreu alterações, passando para 300 pontos totais.
43 relógios participaram do concurso e o prêmio principal foi para n° 7 de J.-M. Badollet & Cie, novamente, com 213 pontos. Havia também a premiação entre fabricantes, para aquele que conquistava a melhor média entre seus relógios depositados (esse tipo de concurso também perdurou ao longo dos anos, com várias mudanças nas regras também). O vencedor foi H.-R. Ekegrèn, que depositou 8 relógios, tendo alcançado uma média de 141 pontos.

O mais importante, no entanto, foi a transformação gradual do Boletim de Marcha emitido pelo Observatório. Até então, os fabricantes podiam solicitar boletins mesmo após provas insuficientes ou resultados medianos, já que não existiam exigências técnicas rigidamente padronizadas. O novo Regulamento mudou isso. A obtenção do Boletim passou a depender de critérios objetivos relativos à duração das provas, posições testadas e desempenho obtido. O Boletim deixava de ser apenas um registro administrativo das observações feitas pelo Observatório e começava a assumir o papel de uma verdadeira validação técnica do relógio.

Apesar dos avanços de 1874, Plantamour ainda considerava que existiam limitações nos critérios utilizados. Em dezembro de 1879, um novo regulamento entrou em vigor, e é aqui que surge talvez a principal contribuição técnica de Plantamour para a história dos concursos de observatório.
Algumas fontes colocam que Plantamour teria introduzido os testes posicionais ou térmicos nos testes, o que, como vimos, não é correto. Essas provas já existiam há décadas. O que ele realmente mudou foi a forma matemática de avaliar os resultados.

Até então, o principal critério era a variação média da marcha diária, calculada comparando a marcha entre dias consecutivos. O problema, segundo Plantamour, era que esse sistema podia mascarar defeitos progressivos. Por exemplo, um relógio que adiantasse lentamente todos os dias ainda poderia apresentar pequenas variações diárias e parecer satisfatório. O novo regulamento substituiu esse sistema pelo desvio médio da marcha diária. Agora, cada marcha individual era comparada à média geral do período inteiro. Isso permitia detectar não apenas uma instabilidade aleatória, mas também tendências sistemáticas de adiantamento ou atraso progressivo.

Exemplificando: pense em um relógio que adiantasse 1 segundo no 1° dia, 2 segundos no 2° dia, 3 segundos no 3° dia e 4 segundos no 4° dia. Ele mostraria mudanças pequenas entre os dias consecutivos, apesar da aceleração contínua da marcha. No sistema antigo, o que importava era principalmente a diferença entre uma marcha e a seguinte. Como a variação diária permanecia relativamente constante, o relógio ainda poderia parecer bem regulado. Já no novo sistema, calculava-se primeiro a marcha média do período inteiro. Nesse exemplo, a média seria de 2,5 segundos por dia. Em seguida, cada marcha diária era comparada a essa média geral. Assim, o primeiro dia estaria 1,5 segundo abaixo da média, enquanto o último estaria 1,5 segundo acima, evidenciando claramente um adiantamento progressivo da marcha.

Nesse novo regulamento, a duração total dos testes diminuiu de 51 para 40 dias, com a remoção da posição vertical com coroa para baixo e o período de observação para as outras posições reduzidos de 7 para 5 dias.
As provas térmicas foram prolongadas — os períodos na estufa e glacière passaram para 5 dias cada. Além disso, embora os testes térmicos já utilizassem temperaturas frias, médias e elevadas, o cálculo do erro de compensação passou a considerar efetivamente as marchas nas três temperaturas, e não apenas a diferença entre os extremos térmicos. Isso permitia detectar defeitos de compensação que antes podiam passar despercebidos.

A fórmula de pontuação do novo Regulamento era:

N=(10043m)+(1000,4δ)+(1005c)N = \left(100 – \frac{4}{3}m\right) + \left(100 – 0{,}4\delta\right) + \left(100 – 5c\right)

Pontuação máxima = 300 pontos

onde: m = desvio médio da marcha diária; δ = desvio médio correspondente às mudanças de posição; e c = erro de compensação por grau centígrado.
Perceba como um erro de compensação era o que mais pesava na pontuação.

A elevação do rigor técnico dos concursos não impediu a melhora gradual dos resultados ao longo da década de 1880 (imagem 7). A proporção de cronômetros com mais de 150 pontos passou de 19,2% em 1880 para 60,6% em 1890. Também no início da década nenhum cronômetro

Imagem 7. Tabela de Resultados Gerais. Data: 1894.

atingiu a marca de 200 pontos. Já em 1890, 11,8% dos relógios conseguiram.

Imagem 8. Tabela de Resultados dos Concursos de Série (Fabricantes). Data: 1894.

Fabricantes como Patek Philippe & Cie, Alexis Favre, Zentler Frères e H.-R. Ekegrèn dominaram os concursos de Genebra da década de 1880 (imagem 8). A Patek Philippe, por exemplo, venceu o concurso de fabricantes — baseado na média da pontuação dos cronômetros enviados — em 1883, 1884, 1886, 1888 e 1890.

Ao longo da década de 1880, os regulamentos de Genebra se espalharam para além das fronteiras suíças e influenciaram outros países. O próprio Émile Gautier, sucessor de Plantamour como diretor do Observatório de Genebra, foi pessoalmente consultado quando dois outros observatórios decidiram criar seus próprios serviços cronométricos, o Observatório de Kew, na Inglaterra, e o Observatório de Yale College, nos Estados Unidos.

Em 1883, o Comitê da Royal Society britânica decidiu estabelecer um serviço cronométrico voltado ao mercado civil inglês, diferentemente dos serviços de Greenwich, voltados à Marinha Real. O Observatório do Rei foi escolhido, e os testes regulares começaram em maio de 1884. Posteriormente, ele passou a ser chamado de Observatório de Kew.
O superintendente G.-M. Whipple entrou diretamente em contato com Gautier, em Genebra, buscando informações para a elaboração do regulamento. Inspirado nos testes já realizados em observatórios suíços, o intuito era promover melhorias técnicas e fortalecer a reputação da relojoaria inglesa.

Segundo Gautier, o regulamento de Kew era essencialmente uma reprodução do regulamento genebrino de 1879. As categorias, os princípios gerais de observação, as posições testadas e as provas térmicas eram praticamente idênticas. O observatório emitia o Kew Certificate para três classes diferentes: A, B ou C, sendo o Kew A o mais cobiçado e utilizado em publicidade pelos fabricantes. Afinal, era o mais exigente e competitivo.
Assim como em Genebra, os relógios aprovados poderiam receber diferentes níveis de distinção. Além do certificado simples, existia em Kew a classificação especially good, equivalente ao très satisfaisant emitido em Genebra.
A principal diferença entre os dois sistemas estava na forma de pontuação. Enquanto Genebra utilizava uma escala máxima de 300 pontos, Kew adotava uma escala de 100 pontos, distribuída de maneira diferente entre os critérios de avaliação. Isso tornava impossível comparar diretamente os resultados obtidos em cada observatório sem conversão. Raoul Gautier demonstrou com exemplos matemáticos essa diferença, em que 68,3 pontos de Kew correspondiam a 0 pontos em Genebra, e que 100 pontos de Kew correspondiam aos 300 pontos de Genebra.
Uma outra diferença é que, em Kew, um relógio que reprovasse numa classe superior podia obter boletim de uma classe inferior, o que não era possível em Genebra.

A iniciativa britânica, porém, acabou atraindo os fabricantes suíços, que viram em Kew uma oportunidade de ganhar prestígio no mercado inglês, um dos principais destinos de exportação de seus produtos, e passaram a participar intensamente dos concursos.

Imagem 9. Tabela de recordes Kew Classe A. Disponível em: Vintage Watchstraps

Não demorou para que dominassem a tabela de recordes (imagem 9).
Entre 1891 e 1936, praticamente todos os recordes da Classe A foram conquistados por fabricantes suíços. A única exceção ocorreu em 1902, quando o recorde pertenceu a Hector Golay — relojoeiro de origem suíça que desenvolveu a maior parte de sua carreira em Londres.
O Kew A Certificate teve um apelo comercial enorme. Fabricantes utilizavam constantemente os resultados de Kew em anúncios publicitários para demonstrar a superioridade técnica de seus relógios.

A Omega, por exemplo, utilizou seus resultados como argumento publicitário durante anos. Em um anúncio da época (imagem 10), a marca celebrava seu novo recorde mundial de 97,8 pontos no concurso de 1936.
Em 1912, os testes foram transferidos para o Laboratório Nacional de Física, em Teddington. Ainda assim, os certificados continuaram conhecidos popularmente como Kew Certificates.

Os dados estatísticos de Kew de 1884 a 1893 mostram crescimento contínuo. De 42 depósitos em 1884 para 1.542 em 1893, e a proporção de boletins especially good cresceu de 2,4% em 1884-85 para 9,1% em 1893.

Imagem 10. Texto principal: “Novo recorde mundial de precisão com 97,8 pontos no concurso internacional de cronômetros de 1936 no Observatório de Teddington (máximo teórico 100 pontos).”. Disponível em: Omega.

Os testes de Kew, realizados em Teddington, continuaram até fevereiro de 1951, sendo substituídos pelo Craftsmanship Test (Teste de Artesanato). Durante todo esse período, um total de 33.200 relógios foram testados. O recorde da Omega de 1936 nunca foi batido.
O Teste de Artesanato era aberto a relógios de qualquer país. Havia 4 notas, indo de 1A até 1D. O teste era tão rigoroso que em seus 27 anos de existência apenas 12 relógios obtiveram algum certificado, e somente 1 relógio obteve uma nota 1A. Um Patek Philippe de convés tourbillon, em 1954.

Um ano depois do início em Kew, o sistema de Genebra também atravessaria oficialmente a fronteira francesa. O Observatório de Besançon inaugurou seu serviço cronométrico em 1885, apresentando seu primeiro relatório em agosto daquele mesmo ano. Entre todos os observatórios, Besançon talvez tenha sido o que adotou o modelo de Genebra com menos alterações. As fórmulas de pontuação eram praticamente idênticas às do regulamento genebrino de 1879, o máximo de 300 pontos distribuídos da mesma forma. Uma das diferenças era de nomenclatura: em vez das categorias A, B e C utilizadas em Genebra, Besançon preferiu utilizar as denominações 1ª, 2ª e 3ª classe, consideradas denominações mais claras pelos franceses.

A outra diferença é que Besançon desenvolveu a punção da cabeça de víbora (poinçon à tête de vipère). Criada em 1897 e incorporada formalmente aos regulamentos em 1909, essa marca era aplicada nos cronômetros aprovados como sinal oficial de certificação cronométrica do observatório (imagem 11).

Imagem 11. Punção da cabeça de víbora. Data: 1910. / Editada

A orientação da punção variava conforme a classe do cronômetro. Na 1ª classe, era aplicada na horizontal; na 2ª classe, na vertical, com a cabeça da víbora voltada para a borda do movimento; e na 3ª classe, também na vertical, mas com a cabeça voltada para o centro.

Imagem 12. Resultados dos Concursos de Besançon. Data: 1894.

Os dados estatísticos de Besançon de 1885 a 1893 revelam uma realidade modesta (imagem 12). Nenhum cronômetro depositado em Besançon atingiu 200 pontos durante todo esse período, ou seja, nenhum prêmio principal foi entregue. O melhor resultado foi obtido pela L. Leroy & Cie de Paris, com 196,5 pontos.


O Observatório de Greenwich, há muito tempo, tinha o objetivo de fornecer à Marinha Real britânica os melhores instrumentos possíveis — como já mencionado. As peças com melhores resultados eram compradas pela Marinha.

O método de Greenwich era bem diferente dos outros observatórios. Em vez de medir marchas diurnas, media apenas marchas semanais (weekly rates).
O sistema de classificação usava o trial number a + 2b, onde a é a diferença entre a maior e a menor marcha semanal, e b é a maior diferença entre duas marchas semanais consecutivas. Como o trial number se dava em segundos, quanto menor o número, mais preciso era o relógio.

Os testes anuais para os chamados Deck Watches (relógios de convés) foram estabelecidos em 1886, embora já fossem avaliados no Observatório antes. Eram relógios de grande diâmetro, com caixa de prata, escapamento de âncora e balanço compensado, usados nos convés como alternativa aos cronômetros marítimos. A Marinha comprava apenas peças com trial number abaixo de 100 segundos.
Eles eram testados em diferentes posições e temperaturas por 8 semanas. As posições eram: vertical, coroa para cima; vertical, coroa para a direita; vertical, coroa para esquerda; e horizontal, mostrador para cima.
O trial number era um pouco diferente, para avaliar as diferenças entre as posições.

TrialNumber=a+2b+12(c+d+e3)TrialNumber = a + 2b + \frac{1}{2}\left(c + \frac{d+e}{3}\right)

onde:
a = diferença entre a maior e a menor marcha semanal, com mostrador para cima;
b = maior diferença entre duas marchas semanais consecutivas, com mostrador para cima;
c = maior diferença entre marchas de coroa para cima e mostrador para cima;
d = maior diferença entre marchas de coroa para direita e mostrador para cima;
e = maior diferença entre marchas de coroa para esquerda e mostrador para cima.

Em 1891 foi introduzida uma Classe B para os cronômetros de convés. Eram de fabricação mais simples e barata, mesmo sendo bem feitos, e os testes eram menos rigorosos, com uma fórmula de trial number simplificada.

Imagem 13. Resultados dos concursos de relógios de convés do Observatório de Greenwich, entre 1886 e 1894. Data: 1894.

Entre 1886 e 1894, a Marinha comprou entre 9 e 35 peças por ano, considerando apenas os relógios de convés classe A.
Veja a tabela completa com o número de relógios de convés que participaram, seus resultados e quantos foram comprados pela Marinha entre esses anos (imagem 13).


Genebra, Neuchâtel, Kew e Besançon tornaram-se os quatro grandes centros da cronometria de observatório no final do século XIX. Embora cada observatório mantivesse particularidades em seus regulamentos, todos compartilhavam a mesma lógica fundamental de testar relógios em diferentes posições e temperaturas, e transformar resultados de marcha em certificados oficiais de precisão.

Enquanto os outros observatórios utilizavam sistemas de pontuação em que números mais altos indicavam melhores resultados, Neuchâtel seguiria um caminho diferente a partir dos anos 1920.
Em 1902, o Observatório reformulou seu sistema de classificação. O novo regulamento, sancionado pelo Conselho de Estado em 27 de dezembro de 1901 e vigente a partir de 1º de janeiro de 1902, foi elaborado com base nas recomendações do Congresso Internacional de Cronometria de Paris, realizado em 1900 (imagem 14).

O Dr. L. Arndt, recém nomeado diretor do Observatório após Adolphe Hirsch, descreveu que os pontos fundamentais do novo regulamento são a padronização da duração dos períodos de observação entre diferentes posições e temperaturas, e a escolha de quatro critérios que permitem avaliar a qualidade de um cronômetro levando em conta todos os elementos.
Ou seja, surgiria uma forma padronizada de mensurar o desempenho dos cronômetros. Essa pontuação se chamava nombre de classement (número de classificação).
Nesse primeiro sistema introduzido em 1902, quanto maior o número de

Imagem 14. Anúncio do novo Regulamento do Observatório de Neuchâtel. Data: 1903-1904

classificação, melhor o resultado. A fórmula recompensava desempenhos superiores com números progressivamente mais altos, sem um limite máximo teórico claramente definido.

Imagem 15. Relatório do Concurso de 1902 de Neuchâtel. Data: 1903. / Editada

Esse sistema permaneceu em uso por cerca de duas décadas. Ao longo desse período, os resultados melhoraram progressivamente. O melhor cronômetro de bolso passou de 15,90 pontos (imagem 15) no primeiro concurso de 1902 para 40,65 pontos,

enquanto o melhor no concurso de série saiu de 15,65 pontos em 1902 para 35,20 pontos em 1922 (imagem 16).

Grande parte dos melhores resultados esteve ligada ao nome de Paul Ditisheim, uma das figuras mais notáveis da relojoaria do período. Sua manufatura dominou os concursos de Neuchâtel durante essa fase, vencendo o prêmio de série em 10 dos 20 anos de vigência desse regulamento (Imagem 16).

Em 1923 a lógica do nombre de classement foi alterada. O regulamento de novembro de 1922, vigente a partir de janeiro de 1923, abandonou o sistema anterior e em

Imagem 16. Nombre de classement de 1902 – 1922 dos Concursos de Série (Fabricantes). Data: 1923

vez de premiar a excelência com números crescentes, passou a somar imperfeições. Assim, quanto menor o número final, melhor o cronômetro.
Como explicou Paul Berner na Revue Internationale de l’Horlogerie, em março de 1923:

“A classificação dos concursos perdeu o caráter assintótico que lhe conferia a antiga fórmula, para revestir uma forma linear diretamente proporcional à soma das imperfeições. Os cronômetros serão portanto ordenados segundo a soma de seus defeitos; daqui em diante, um cronômetro perfeito observado em Neuchâtel teria zero como número de classificação (…)”

Zero representava um cronômetro teoricamente perfeito dentro dos critérios estabelecidos pelo Observatório — algo inalcançável na prática. A partir daí, a interpretação dos resultados em Neuchâtel se tornou mais simples.

Esse modelo permaneceria em uso até o encerramento dos concursos em Neuchâtel, em 1967. É possível verificar todo o histórico dos relógios mecânicos de pulso observados por Neuchâtel, de 1945 até 1967, através do Observatory Chronometer Database (OCD), onde o nombre de classement de cada relógio aparece sob a designação moderna “N-Score“.

Desde o início, os concursos de observatório foram dominados por cronômetros marítimos, de convés e de bolso. O relógio de pulso — embora em ascensão comercial desde o início do século XX — ainda era visto como menos favorável à alta precisão, principalmente por suas dimensões reduzidas e pelas condições mais severas de uso cotidiano, como choques e mudanças constantes de posição. Criar um movimento pequeno o suficiente para caber no pulso e, ao mesmo tempo, manter um desempenho de altíssimo nível era um desafio considerável.

Imagem 17. Decreto complementando o regulamento para a observação dos cronômetros, pêndulos e outros instrumentos de medição do tempo no Observatório astronômico e cronométrico de Neuchâtel, de 29 de novembro de 1932. Data: 1941.

Veja a imagem 17.
Em 7 de fevereiro de 1941, o Conselho de Estado de Neuchâtel publicou um decreto complementando o regulamento de 1932 e criando oficialmente uma categoria específica para cronômetros destinados a serem usados no pulso (chronomètres destinés à être portés en bracelet).

Os movimentos precisavam respeitar limites físicos rigorosos. O diâmetro máximo permitido era de 34 mm, ou área máxima equivalente de 908 mm² (para formatos não circulares), além de altura máxima de 5,3 mm.

As posições de teste também buscavam refletir o uso real no pulso.

Sendo elas: vertical, 12 horas para baixo; vertical, 9 horas para baixo; vertical, 3 horas para baixo; horizontal, mostrador para baixo; horizontal, mostrador para cima.
As equivalências definidas pelo próprio regulamento eram:
12 horas para baixo = coroa à esquerda;
9 horas para baixo = coroa para cima;
3 horas para baixo = coroa para baixo.
O Observatório podia, inclusive, recusar relógios quando a posição da coroa não correspondesse à exigência.

As provas duravam 45 dias, distribuídos em dez períodos:

PeríodoDuraçãoPosiçãoTemperatura
4 diasVertical, 12 horas para baixo18°C
4 diasVertical, 9 horas para baixo18°C
4 diasVertical, 3 horas para baixo18°C
4 diasHorizontal, mostrador para baixo18°C
4 diasHorizontal, mostrador para cima18°C
5 diasHorizontal, mostrador para cima4°C
5 diasHorizontal, mostrador para cima18°C
5 diasHorizontal, mostrador para cima32°C
5 diasHorizontal, mostrador para cima18°C
10°5 diasVertical, 12 horas para baixo18°C

Cronógrafos ainda eram submetidos à testes adicionais com o mecanismo acionado.

Um detalhe importante é que esses relógios ainda não participavam dos concursos competitivos, no sentido de concorrerem aos prêmios. Eles podiam receber o Boletim de Marcha, seguindo os mesmos critérios aplicados aos cronômetros de convés e de bolso de primeira classe, mas não concorriam oficialmente. Isso só mudou em 1945.

Na reedição do regulamento de Neuchâtel, o artigo 32-bis foi modificado para permitir a admissão dos relógios de pulso aos concursos oficiais em 1945 (imagem 18).

Enquanto isso, Genebra seguia uma abordagem um pouco diferente.
Em vez de criar uma categoria explicitamente dedicada aos relógios de pulso, o Observatório os absorveu dentro de suas categorias dimensionais.
Surgiu a Categoria D, que exigia movimentos com diâmetro máximo de 30 mm ou área máxima de 707 mm².
Ou seja, movimentos pequenos o suficiente para relógios de pulso, mas classificados por tamanho.

Os observatórios, então, passaram a testar

Imagem 18. Reedição do Regulamento de Neuchâtel. Data: 1945.

movimentos concebidos para uso no pulso e premiá-los.

Imagem 19. Resultados da categoria de Cronômetros de Pulso de Neuchâtel em 1945.

Os fabricantes responderam imediatamente.
No primeiro concurso competitivo em Neuchâtel para cronômetros de pulso, em 1945, a Longines dominou a categoria, vencendo 7 primeiros prêmios, 12 segundos e 3 terceiros. Foi seguida por Omega e Zenith (imagem 19).

Os sistemas de premiação não funcionavam mais como um pódio único (1º, 2º e 3º lugares absolutos), mas por faixas de mérito. Múltiplos cronômetros podiam conquistar um “primeiro prêmio” caso atingissem determinado nível. Ainda assim, havia um melhor resultado absoluto, obviamente.
O cronômetro de pulso que liderou a lista nesse primeiro concurso foi um Longines, que obteve um nombre de classement 5,0.

Em Genebra, quem obteve a maior pontuação foi a Omega, 770 pontos (máximo de 1.000), seguida por Patek Phillippe — com vários cronômetros na lista — e Rolex. (imagem 20)

Imagem 20. Tabela de Resultados do Observatório de Genebra em 1945. / Editada.

Ao longo de mais de um século, os concursos de observatório representaram o mais alto nível da precisão relojoeira. Entretanto, com o passar dos anos, o conceito dos concursos começava a entrar em tensão com a realidade da indústria.
Os movimentos enviados aos concursos haviam se tornado peças extremamente especializadas, ajustadas especificamente para obter o melhor desempenho possível dentro de um conjunto muito particular de testes. Na maioria dos casos, tratava-se de mecanismos que pouco tinham em comum com aquilo que efetivamente era vendido ao público — os concursos continuavam medindo precisão, mas cada vez menos a precisão de relógios reais de produção.

Outro fator importante era a evolução tecnológica. A relojoaria mecânica havia melhorado sua precisão ao longo dos anos através de balanços compensados, melhores escapamentos, movimentos com frequências mais elevadas, materiais mais refinados e ajustes extremamente meticulosos. Mas com o advento da eletrônica, a precisão dos relógios seria levada a outro patamar.

O Observatório de Neuchâtel era aberto à participantes de fora de Europa desde 1959. Em 1963, a Suwa-Seikosha, uma subsidiária da Seiko, tornou-se a primeira empresa japonesa a participar dos concursos, com dois cronômetros a quartzo. No ano seguinte, a Suwa enviou seu primeiro movimento para a categoria de cronômetro mecânico de pulso, mas ficou apenas na 144ª posição, com um N-score de 7,97. Nesse mesmo ano a Daini-Seikosha, outra subsidiária da Seiko, também participou na categoria de pulso, alcançando a 153ª posição, com N-score de 8,6.

Imagem 21. Melhores resultados do Concurso de Cronômetros de Neuchâtel de 1967.

Mas é em 1967 que as duas empresas japonesas alcançaram seus melhores resultados em Neuchâtel, e as mudanças tornaram-se impossíveis de ignorar.
Um dos cronômetros mecânicos de pulso da Daini-Seikosha ficou com a 4ª posição, com o N-score de 2,04 (até então, a sexta maior pontuação já registrada por um cronômetro mecânico de pulso). O melhor cronômetro da Suwa-Seikosha alcançou a 12ª posição e N-score de 2,23. O primeiro lugar foi para um Omega, com N-score recorde de 1,73.
O interessante é que na classificação de série por fabricante, a Daini e Suwa ficaram em 2° e 3° lugar, respectivamente. O que significa que, em média, seus 4 melhores cronômetros mecânicos de pulso só perderam para a os 4 da Omega.

Na categoria de cronômetros de bolso a quartzo, a Suwa venceu o prêmio de série por fabricante (imagem 21).
Enquanto os japoneses impressionavam com ótimos cronômetros, os resultados de Neuchâtel nesse ano mostravam o tamanho da discrepância de precisão entre mecânicos e quartzo.

Nesse mesmo concurso, o Centre Electronique Horloger (C.E.H.) — consórcio suíço criado para desenvolver tecnologia eletrônica aplicada à relojoaria — apresentou seus cronômetros de pulso a quartzo e dominou completamente a classificação. Os dez primeiros lugares da categoria foram ocupados por relógios do C.E.H., com resultados simplesmente inalcançáveis para qualquer mecânico (imagem 22).
O melhor resultado foi um N-score de 0,152, número extraordinário quando comparado ao já mencionado recorde mecânico vencedor da Omega, de 1,73. Em outras palavras, o melhor quartzo foi mais de dez vezes mais preciso que o melhor relógio mecânico daquele concurso.

Imagem 22. Os resultados dos melhores cronômetros de pulso a quartzo do concurso de 1967.

O próprio material técnico da época descrevia o quartzo como uma ruptura tecnológica. Enquanto os relógios mecânicos mais avançados haviam elevado gradualmente a frequência do órgão regulador, operando entre 18.000 e 36.000 alternâncias por hora, ou seja, entre 2,5 e 5 Hz, o cristal de quartzo do C.E.H. oscilava a aproximadamente 10.000 ciclos por segundo (10.000 Hz).

No concurso do Observatório de Genebra, em 1968, os resultados foram ainda mais surpreendentes quanto aos japoneses. A categoria de cronômetros de pulso em Genebra não separava relógios de quartzo de mecânicos, todos disputavam a mesma classificação. Em 1968, Suwa-Seikosha ocupou da 4ª à 10ª posição com relógios mecânicos, perdendo apenas para 3 relógios a quartzo do C.E.H. (Centre Électronique Horloger). O melhor movimento da Suwa atingiu 58,19 pontos, batendo o recorde para um relógio mecânico da categoria de pulso no Observatório, obtido pela Omega com 56,42 pontos no ano anterior — a nota máxima nessa época era de 60 pontos.
As 23 primeiras posições de cronômetros mecânicos de pulso nesse concurso foram ocupadas pela Suwa-Seikosha.

Em maio de 1968, o Observatório de Neuchâtel anunciou a suspensão do concurso daquele ano para a categoria de cronômetros de pulso. O comunicado oficial afirmava que os concursos haviam se afastado de sua finalidade original. Os relógios submetidos eram cada vez mais construídos especificamente para competir, com pouca relação com a produção real das manufaturas e, segundo o próprio texto, as exigências do concurso levavam os fabricantes a direcionar esforços “muito divergentes daqueles que deveriam realizar para melhorar a qualidade de sua produção” — um ponto já abordado aqui.
A solução proposta era uma reformulação completa. Os novos concursos deveriam introduzir provas dinâmicas, simulando melhor as condições reais de uso, incluindo testes de choque, magnetismo e desempenho do relógio completo, não apenas do movimento ajustado em laboratório. Também se pretendia exigir que as peças inscritas correspondessem efetivamente à produção industrial das marcas.
Não havia nenhuma menção a Seiko.

Um ano depois, em maio de 1969, o presidente do conselho de administração do C.E.H., M. E. Choisy, em pronunciamento à assembleia geral dos acionistas, comentou sobre a empresa japonesa.

Imagem 23. Preâmbulo editorial do pronunciamento de M.E. Choisy, diretor do C.E.H., publicado no Journal Suisse d’Horlogerie em 1969.

Já no preâmbulo editorial, há uma observação interessante (imagem 23):

“O Centre Électronique Horloger S.A., em Neuchâtel, desempenha um papel que se pode qualificar como vital para o futuro

da nossa indústria relojoeira. Ao longo de seus sete anos de existência, concebeu, construiu e desenvolveu o relógio “Swissonic” com ressonador acústico [oscilador semelhante ao diapasão] e o relógio de pulso a quartzo.
Este último bateu os recordes de precisão na categoria relógios de pulso no último concurso do Observatório de Genebra. Essa vitória foi ainda mais significativa por ter sido obtida em concorrência com relógios japoneses que, sem o trabalho do C.E.H., estariam em primeiro lugar.

Se no texto editorial que antecede o pronunciamento a preocupação com a concorrência japonesa já aparecia, o presidente do C.E.H. a explicita ao longo de sua fala:

“Nos concursos do Observatório de Neuchâtel, os relógios de pulso do C.E.H. não só ocuparam o primeiro lugar mas mostraram de um ano para o outro uma melhoria de 11,5%, ilustrando assim novamente a melhor tradição relojoeira suíça de um esforço incansável. (…) No concurso do Observatório de Genebra o resultado foi ainda mais importante. Uma empresa japonesa, concorrente perigosa da relojoaria suíça, tinha feito, para os relógios de pulso que são o essencial da produção relojoeira, um esforço enorme ao qual é preciso render homenagem. No entanto, foram três relógios a quartzo da vossa empresa, Senhores acionistas, que ficaram com os três primeiros lugares, um desses relógios atingindo 59,87 pontos, quase o máximo absoluto de 60.”

E conclui:

“Os resultados do concurso de Genebra, que acabo de recordar, mostram que para conservar o posto da relojoaria suíça o esforço científico e financeiro deve ser não só mantido mas ainda acrescido.

Apesar da proposta de reformulação apresentada pelo Observatório de Neuchâtel, tais mudanças nunca chegaram a se concretizar, e os concursos tradicionais foram encerrados após a edição de 1967. Em Genebra, o concurso de 1968 também seria o último. Besançon encerraria seus concursos alguns anos depois, enquanto Kew, como vimos, encerrou esse modelo em 1951, substituindo-o por um novo sistema que perduraria até 1978.

Talvez não exista uma resposta única para explicar por que essa tradição de mais de um século chegou ao fim. Os motivos oficiais apresentados pelos suíços — de que os concursos haviam se tornado competições de relógios distantes da realidade da indústria — faziam sentido. Ao mesmo tempo, o contexto tecnológico com a chegada do quartzo tornava a lógica da competição cada vez mais difícil de se sustentar.
E no caso dos observatórios suíços existe ainda uma aparente coincidência histórica difícil de ignorar. Justamente no momento em que a relojoaria japonesa começava a se estabelecer entre os melhores resultados, os concursos se encerraram. Não há como afirmar que a ascensão japonesa tenha sido a causa direta do encerramento, tampouco descartá-la totalmente.

Provavelmente a soma desses fatores resultou no fim dos concursos tradicionais. Um modelo competitivo fora da realidade industrial aliado a uma mudança tecnológica profunda trazida pela eletrônica, e um cenário internacional em que a supremacia suíça deixava de ser incontestável.


Livros

GAUTIER, Raoul. Le Service Chronométrique à l’Observatoire de Genève et les concours de réglage de la Classe d’Industrie et de Commerce de la Société des Arts de Genève: avec une étude des épreuves instituées dans d’autres observatoires pour les chronomètres de poche. Genève: Imprimerie Aubert-Schuchardt, 1894.

SOBEL, Dava. Longitude: a verdadeira história do gênio solitário que resolveu o maior problema científico do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Fontes primárias

Europa Star – Edition for Europe. Edição de 1968.
F.H. Informations. Diversas edições consultadas.
Journal Suisse d’Horlogerie. Diversas edições consultadas.
La Suisse Horlogère – Édition Internationale. Edição de 1968.
L’Union Horlogère. Edição de 1885.
Revue chronométrique: journal des horlogers, scientifique et pratique. Diversas edições consultadas.
Revue internationale de l’horlogerie. Diversas edições consultadas.
Société des Arts de Genève – archives.

Sites

OBSERVATOIRE DE GENÈVE. Service de Chronométrie. Disponível em:
https://obswww.unige.ch/chronometrie/

PLUS9TIME. Seiko & the Neuchâtel Chronometer Competition. Disponível em:
https://www.plus9time.com/seiko-the-neuchtel-chronometer-competition#Year-1967

Royal Museums Greenwich. Disponível em:
https://www.rmg.co.uk/

The King’s Observatory. Disponível em:
https://www.kingsobservatory.co.uk/

VINTAGE WATCHSTRAPS. Kew and Greenwich Watch Trials. Disponível em:
https://www.vintagewatchstraps.com/kewwatchtrials.php


2 respostas a “O Certificado de Cronômetro – Parte 1: Os Concursos de Observatório”

  1. Avatar de Anaille Guimarães

    Que texto incrível!! Obrigada por compartilhar tanto conhecimento!

    1. Avatar de Guilherme Guimarães

      Muito obrigado pelo elogio, Ana!! 😁

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