Saindo da China e viajando para o Ocidente, chegamos à Europa medieval, alguns séculos antes da nossa parte 2 da História do Tempo.

O período que conhecemos por Idade Média começou na Europa após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., que já passava por crises nos séculos II e III. Nesses séculos, as grandes conquistas territoriais do Império praticamente cessaram, reduzindo o fluxo de prisioneiros de guerra — escravos —, que eram a principal fonte de mão de obra na economia romana. Isso, aliado a outros agravantes, gerou uma crise econômica severa e, consequentemente, o enfraquecimento militar do Império, deixando-o vulnerável a ataques e invasões, culminando na deposição do último imperador no século V.
As constantes invasões também fizeram com que a população migrasse das grandes cidades para zonas rurais, mesmo antes da queda do Império.

Evidentemente, esse processo foi longo e muito mais complexo, mas esse breve panorama nos ajuda a entender o cenário que antecede a Idade Média.

Paradoxo

Foi o relógio que ensinou o homem a se preocupar com a medição do tempo, ou foi a crescente preocupação com a medição do tempo que levou à invenção do relógio?

A resposta para tal pergunta nos leva à Alta Idade Média, período que se estendeu do século V ao século X (alguns historiadores colocam até meados do século XI). Para respondê-la, precisamos primeiro entender como aquela sociedade se relacionava com o tempo.
Durante esse período, a vida da maioria da população europeia não era organizada por horas exatas. Cerca de 90% da população era composta por camponeses, que viviam da terra de algum nobre em troca do pagamento de tributos, e o ritmo da vida era regulado pelos ciclos naturais, como o nascer e o pôr do sol e os períodos de plantio e colheita. Esses camponeses eram completamente indiferentes à divisão matemática precisa das horas.
Isso não significa, porém, que a medição do tempo fosse irrelevante para aquela sociedade. Havia uma instituição extremamente preocupada em organizá-la: a Igreja Cristã.



Desde os primeiros séculos do cristianismo desenvolveu-se a tradição de orar em momentos específicos do dia. Tertuliano, um dos principais teólogos do cristianismo primitivo, escreveu no capítulo XXV de seu tratado De Oratione (Sobre a Oração), no final do século II ou início do século III:

Gravura em madeira de Tertuliano, por André Thevet (Lyon, 1584). Imagem: “Tertullian”, disponível em Wikimedia Commons.

Quanto ao tempo da oração, não será supérfluo observar, além dos momentos prescritos, as orações também em certas horas que todos conhecem e que marcam as partes do dia: a terça, a sexta e a nona hora. (…) Mesmo que essas práticas simplesmente não exijam qualquer observância, seria bom considerá-las como convite a orar e também como norma, a fim de nos arrancarmos das ocupações ordinárias em certos intervalos do dia e nos dedicarmos à oração. Lemos, com efeito, na Escritura que Daniel orava nessas horas, conforme o ensinamento de Israel. (…) Obviamente, essas orações acrescentam-se às orações legítimas, que são devidas sem qualquer admoestação ao amanhecer e ao anoitecer.


Tertuliano também escreveu no capítulo X de seu tratado De Jejunio (Sobre o Jejum), composto no final do século II:

(…) por que não devemos entender que, com absoluta e perfeita indiferença, devemos orar sempre, em todo lugar e a todo tempo; ainda assim, que estas três horas, por serem mais marcantes nas coisas humanas — [horas] que dividem o dia, que distinguem os afazeres, que repercutem no ouvido público — tenham igualmente sido sempre de especial solenidade nas orações divinas?

As horas mencionadas — terça, sexta e nona — correspondem aproximadamente às 9, 12 e 15 horas no sistema moderno.

Essas passagens mostram que, já nos primeiros séculos do cristianismo, havia a preocupação de marcar certos momentos do dia para a oração coletiva. Essa tradição seria posteriormente sistematizada com o surgimento do monaquismo (ou monasticismo), tornando-se cada vez mais estruturada. Nos mosteiros, a vida cotidiana passou então a ser organizada em torno de uma sequência rigorosa de ofícios religiosos.

Tempo da Igreja

Foi principalmente com a Regra de São Bento, escrita por Bento de Núrsia no século VI, que esse sistema ganhou sua forma mais completa no Ocidente. O dia passou a ser dividido em diferentes momentos de oração, com as chamadas horas canônicas — Matinas, Laudes, Prima, Terça, Sexta, Nona, Vésperas e Completas — distribuídas entre a madrugada, a manhã, a tarde e a noite.
No capítulo 16 de sua regra, Bento escreveu:

Diz o Profeta: “Louvei-vos sete vezes por dia”. Assim, também nós realizaremos esse sagrado número, se, por ocasião das Laudes, Prima, Terça, Sexta, Nona, Vésperas e Completas, cumprirmos os deveres da nossa servidão; (…) Quanto às Vigílias noturnas, diz da mesma forma o mesmo profeta: “Levantava-me no meio da noite para louvar-vos”.

Breviário do século XIV, com notação musical e os textos dos Ofícios nas oito horas canônicas. Imagem: “Noted breviary, f.153v, (218 x 162 mm), 14th century, Alexander Turnbull Library, MSR-06. (5343925727)”, disponível em Wikimedia Commons.

As Vigílias tornaram-se, posteriormente, as Matinas.

Assim, o cotidiano monástico passou a ser regulado por um ciclo contínuo de oração, trabalho e descanso. Os monges precisavam se reunir nos momentos determinados para cada ofício. O tempo passou a ser considerado um recurso precioso, algo que deveria ser ordenado e utilizado corretamente, porque, acima de tudo, pertencia a Deus, mas também porque era irrecuperável. Atrasos não eram apenas inconvenientes; eram vistos como falhas na disciplina espiritual da comunidade e poderiam comprometer a salvação de todos.

Na Europa medieval predominava um sistema conhecido como horas temporais, que remonta ao Egito Antigo e foi herdado pela Europa através das tradições judaicas, gregas e romanas. Nesse sistema, o período entre o nascer e o pôr do sol era dividido em doze partes (parte do trabalho), e o mesmo acontecia com a noite (parte do descanso). Como a duração do dia varia ao longo do ano, também variava a duração dessas horas. No verão, as horas diurnas eram mais longas; no inverno, mais curtas.

Para determinar aproximadamente esses momentos, os monges utilizavam diferentes recursos. Durante o dia, podiam recorrer a relógios solares instalados nos mosteiros. À noite, ou em dias nublados, utilizavam dispositivos como clepsidras (relógios de água) — falamos bastante sobre elas na parte 1 da nossa História do Tempo.
Mas para o ofício noturno, após o período de descanso, alguém precisaria vigiar o relógio para despertar os demais no momento correto, o que seria muito arriscado — afinal, o próprio vigia poderia adormecer (no entanto, esse era o método previsto na Regra do Mestre, que serviu de inspiração para a Regra de São Bento). Para evitar esse problema, a Igreja aprendeu a fabricar mecanismos de alarme.

Os primeiros mecanismos de alarme

O instrumento mais importante para organizar o tempo medieval, até então, não era propriamente o relógio, mas o sino. Era ele que marcava os momentos da vida religiosa. Os sinos grandes alertavam os monges para as horas canônicas e mudanças importantes, enquanto os pequenos anunciavam o início e fim das atividades e organizavam o cotidiano do claustro. O tempo não era algo observado individualmente, mas compartilhado coletivamente pela comunidade.

Para tornar esse sistema mais confiável, os mosteiros passaram a utilizar dispositivos capazes de acionar automaticamente os sinos nos momentos desejados. Entre os séculos XI e XIII, houve um avanço significativo nas técnicas de medição hidráulica do tempo, especialmente no uso de clepsidras associadas a sinos. Esses relógios de água eram regulados para funcionar durante determinadas horas e, ao final do intervalo previsto, acionavam um pequeno sino. O objetivo era despertar os monges na hora certa e o sineiro para tocar os grandes sinos (nessa época, o relógio não tocava os grandes sinos).
Tudo indica que, nesse período, esses dispositivos haviam se tornado uma característica comum dos mosteiros bem organizados.

O autor medieval Robertus Anglicus escreveu em 1271 que os artifices horologiorum (“relojoeiros”) estavam tentando fazer uma roda que desse uma volta por dia. É possível que esses artesãos fossem técnicos experientes na construção de clepsidras, especialmente daquelas equipadas com sinos e engrenagens, e que justamente a experiência acumulada com esses mecanismos tenha levado à experimentação de novos tipos de instrumentos. Foi provavelmente nesse contexto que começaram a surgir dispositivos ainda mais inovadores.
Essas máquinas ainda não eram relógios no sentido moderno da palavra. Não indicavam horas nem funcionavam continuamente. Eram essencialmente temporizadores mecânicos, programados para tocar um sino após certo período. No entanto, o princípio mecânico que tornava possível esse movimento rítmico já continha o elemento fundamental que mais tarde permitiria o funcionamento dos relógios mecânicos que conhecemos: o mecanismo de escape.

Eles utilizavam engrenagens movidas por peso e um mecanismo que produzia um movimento oscilante capaz de fazer um pequeno martelo bater repetidamente em um sino. Esse sistema era formado por uma roda de escape, cuja rotação era alternadamente bloqueada e liberada por duas pequenas palhetas presas a um eixo chamado verge. Na extremidade desse eixo era colocado um pequeno badalo que, ao oscilar para frente e para trás, golpeava um sino. O resultado era um dispositivo capaz de produzir um alarme após determinado intervalo de tempo.

A sequência do escape de verge, vista de cima: (1) A palheta
superior (branca), a, segura a roda, c, que está girando na direção da seta. (2) A roda
empurra a palheta superior para o lado e faz com que a verge, g, gire, trazendo assim a
palheta inferior, b. (3) A palheta inferior (preta) para a roda e a empurra para trás (daí o
nome “escapamento de recuo”), conforme mostrado pela seta. (4) A roda empurra a palheta inferior para o lado e retoma sua rotação para a frente.

A partir aproximadamente do século XI, as cidades voltaram a crescer. O comércio se expandiu, novas atividades econômicas surgiram e a vida urbana tornou-se progressivamente mais complexa. Mercadores, artesãos e trabalhadores passaram a depender cada vez mais de horários relativamente estáveis para coordenar suas atividades. A Europa começava a mudar.

Tempo do mercador

Nas cidades, os sinos das igrejas passaram a desempenhar também funções civis. Eles marcavam o início e o fim da jornada de trabalho, anunciavam a abertura e o fechamento dos mercados, convocavam assembleias e alertavam a população sobre acontecimentos importantes. Mas isso estava longe de ser perfeito.
Cada igreja podia tocar seus sinos em momentos ligeiramente diferentes. Os instrumentos usados para medir o tempo ainda eram imprecisos. Em uma sociedade cada vez mais urbana e comercial, essa imprecisão começava a gerar dificuldades práticas. Documentos da época mostram que a definição dos horários podia se tornar motivo de disputa. Trabalhadores questionavam a duração da jornada marcada pelos sinos; empregadores buscavam prolongá-la; autoridades urbanas tentavam impor regras mais claras para organizar a vida coletiva. O tempo deixava de ser apenas uma referência natural ou religiosa. Ele passava a ter também uma dimensão econômica e social. Quanto mais complexa se tornava a vida urbana, maior era a necessidade de sinais de tempo regulares e confiáveis.
Nesse novo contexto, mercadores e autoridades urbanas começaram a perceber que “o tempo tinha um valor”. A duração de uma viagem podia aumentar ou reduzir lucros; atrasos podiam significar perdas; uma jornada de trabalho mais longa ou mais curta alterava diretamente a produção.

À medida que as redes comerciais se expandiam e as operações econômicas se tornavam mais complexas, surgia uma necessidade crescente na sociedade europeia de medir o tempo com maior regularidade e precisão.

Foi nesse contexto que começaram a aparecer soluções técnicas, como mencionado acima, capazes de produzir sinais de tempo automáticos e relativamente uniformes — mecanismos que mais tarde evoluiriam para os primeiros relógios mecânicos. Afinal, embora os mosteiros tenham sido provavelmente o principal mercado para esses dispositivos e o principal estímulo para os avanços técnicos na medição do tempo, é pouco provável que a demanda monástica, sozinha, explique o rápido desenvolvimento dessas máquinas. Isso sugere que o interesse por instrumentos mais precisos de medição do tempo começava a ultrapassar os muros do claustro, encontrando também espaço em um mundo urbano e econômico em transformação.

O relógio, portanto, não surgiu em um vazio tecnológico nem como uma curiosidade mecânica isolada. Ele nasceu como resposta a uma transformação social mais profunda. A Europa medieval já havia aprendido a valorizar o tempo — primeiro na disciplina religiosa dos mosteiros, depois na organização econômica das cidades. O que faltava era um instrumento capaz de medi-lo com maior regularidade.


Assim, voltamos ao paradoxo inicial, e agora podemos responder a pergunta.
O relógio não criou o interesse pela medição do tempo; foi o interesse pela medição do tempo que levou à invenção do relógio.

LANDES, David S. Revolution in Time: Clocks and the Making of the Modern World. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Lisboa: Editorial Estampa, 1979.

FRASER, J. T.; LAWRENCE, Nathaniel M. (orgs.). The Study of Time II: Proceedings of the Second Conference of the International Society for the Study of Time. Berlin: Springer, 1975.

Fontes primárias e textos religiosos

TERTULLIANO. De Oratione. Disponível em: https://www.tertullian.org/latin/de_oratione.htm

TERTULIANO. Sobre o Jejum (De Jejunio). Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/padres_igreja/view/tertuliano/sobre_o_jejum/

BENTO DE NÚRSIA. Regra de São Bento. Disponível em: https://www.mosteirodasantacruz.org/post/regra-de-s%C3%A3o-bento

Sites

INSTITUTO PORTUGUÊS DE RELOJOARIA. Horas temporais. Disponível em: https://www.institutoportuguesderelojoaria.pt/post/horas-temporais-1


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