Ao longo deste artigo serão utilizados os termos franceses bureau e bureaux. Embora possam ser traduzidos, no contexto deste artigo, como “escritório” ou “gabinete”, optei por manter a nomenclatura original para preservar o contexto histórico das instituições descritas. Em francês, bureau é a forma singular, enquanto bureaux é o seu plural. Assim, ao me referir a uma única dessas instituições utilizarei bureau; para o conjunto delas, utilizarei bureaux.
Aparecerá com frequência também a expressão “relógio civil”, tradução do termo francês montre civile utilizado nos documentos da época. A expressão não deve ser entendida literalmente como um relógio destinado ao uso por civis, mas sim como um relógio comum de produção comercial, em oposição aos cronômetros de concursos de observatório. Sempre que utilizar a expressão “relógio civil”, estarei me referindo a essa categoria de relógios produzidos para o mercado corrente.


Na primeira parte deste artigo sobre o Certificado de Cronômetro, acompanhamos o surgimento e a evolução dos Concursos de Observatório, desde as experiências pioneiras da Société des Arts de Genève até os grandes concursos cronométricos que marcaram a segunda metade do século XIX e quase todo o século XX. Esses testes desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento da relojoaria de precisão, incentivando fabricantes a aperfeiçoar constantemente seus relógios em busca de melhor desempenho e reconhecimento.

Entretanto, os observatórios atendiam apenas uma pequena parcela da produção relojoeira. Os relógios submetidos aos concursos representavam a elite técnica da indústria — peças cuidadosamente ajustadas e destinadas a demonstrar o mais alto nível de precisão que os fabricantes e reguladores eram capazes de alcançar.

Enquanto isso, uma realidade muito diferente existia fora dos observatórios. Todos os anos, centenas de milhares de relógios civis eram produzidos na Suíça — número que nas décadas seguintes alcançaria a casa dos milhões. Esses relógios constituíam a base econômica da indústria relojoeira, mas não existia um sistema acessível que permitisse avaliar sua qualidade de forma padronizada e confiável. O comprador não possuía os meios para saber como aquele relógio realmente se comportaria ao longo do uso cotidiano.

Essa preocupação aparece de forma explícita nas fontes da época. Em 1884, durante os debates que levariam à criação do Bureau Oficial de Observação de La Chaux-de-Fonds, seus idealizadores defendiam que a indústria precisava de um instrumento capaz de distinguir o bom relógio do produto inferior. Eles disseram:

“Entregando um certificado à boa mercadoria, separaremos o joio do trigo, a fim de que o bom relógio não seja mais confundido com o que se convencionou chamar de camelotte (…). Entregando um certificado ao bom relógio, este não será mais confundido com o relógio similar inferior. Ele se valorizará rapidamente por este meio, e fabricantes e operários receberão a justa remuneração de seu trabalho.”

Segundo eles, a ausência de um sistema de certificação permitia que relógios de qualidade muito diferente fossem comercializados lado a lado, pressionando os preços para baixo e dificultando o reconhecimento do trabalho dos fabricantes mais meticulosos.

A partir dessa necessidade nasceriam os Bureaux Oficiais de Observação.
Embora claramente inspirados em alguns aspectos pelos observatórios, a finalidade dos bureaux era diferente. Não havia competições ou prêmios. O objetivo era criar um sistema permanente de observação e certificação acessível à produção comercial.
O primeiro passo nessa direção ocorreu na cidade de Bienne, em 1878, com a criação de um bureau de observação de relógios de bolso na Escola de Relojoaria da cidade. Nos anos seguintes, a ideia se expandiria para outros centros relojoeiros, como Saint-Imier, La Chaux-de-Fonds e Le Locle.
Seriam desenvolvidos métodos de ensaio cada vez mais sofisticados, incluindo testes em múltiplas posições e estudos destinados a verificar se os resultados obtidos no laboratório correspondiam efetivamente ao comportamento do relógio durante o uso. Tudo isso seria regulamentado, com tolerâncias bem definidas.

Resumidamente, era tarefa dos bureaux elevar o padrão da produção relojoeira e fornecer ao mercado uma referência objetiva de qualidade. Dessa tradição de observação sistemática e certificação surgiria, quase um século depois, o tão conhecido Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres — o COSC.

Em 18 de março de 1878, a Comissão da Escola de Relojoaria de Bienne aprovou um regulamento criando um bureau de garantia para a observação do ajuste dos relógios civis. O Conselho Municipal sancionou o texto em 22 de março, e o Conselho Executivo do cantão de Berna o ratificou em 27 de março do mesmo ano.

O regulamento de 1878 era simples, mas fundava um serviço inteiramente novo para os relógios civis. As peças seriam recebidas em depósito contínuo e submetidas a provas padronizadas em duas posições, horizontal e vertical, mas sem competições ou prêmios. Duas categorias de relógios foram estabelecidas: a 1ª classe, destinada aos de melhor qualidade, exigia 14 dias de observação e cobrava uma taxa de 1,50 fr. (francos) para emissão do boletim de marcha; a 2ª classe, para os relógios de menor qualidade, requeria 6 dias de observação e uma taxa de 0,50 fr. para emissão do boletim.
O horário de referência utilizado para verificar e ajustar o regulador astronômico do bureau, e assim avaliar os relógios, era transmitido diariamente pelo Observatório de Neuchâtel por meio de um sinal elétrico.

Para serem aprovados nos testes, os relógios da 1ª classe não podiam apresentar variação de marcha superior a 15 segundos de um dia para o outro na mesma posição, variação entre as posições horizontal e vertical superior a 40 segundos, e marcha diária superior a ±40 segundos (Nota: o sinal “−” indica avanço e o sinal “+” atraso. Esta é a convenção utilizada nos regulamentos históricos dos bureaux. A convenção atual do COSC é inversa: sinal “+” indica avanço e sinal “−” indica atraso). As exigências da 2ª classe eram, obviamente, menos rigorosas. Admitiam-se variações de marcha de até 30 segundos de um dia para o outro na mesma posição, até 90 segundos entre as posições horizontal e vertical, e marcha diária de até ±90 segundos.
Os relógios que não se enquadrassem nesses limites seriam devolvidos aos proprietários sem boletim de marcha, mediante pagamento de uma taxa de 0,50 fr. para 1ª classe e 0,20 fr. para 2ª classe.

O próprio ato de sanção do Conselho Executivo do cantão de Berna justificava a aprovação do regulamento com argumentos de que suas disposições tendiam a “proteger a fabricação honesta, assim como os interesses dos compradores”, e que contribuíam para “melhor estabelecer a reputação da indústria relojoeira no cantão de Berna”. O comprador de relógios civis passava a ter, pela primeira vez, um documento objetivo sobre o comportamento do relógio — um registro emitido por uma instituição técnica imparcial.

Os primeiros resultados do bureau foram publicados em julho de 1878, poucos meses após sua abertura, e registravam a avaliação de 100 relógios. Foram emitidos 80 boletins de 1ª classe e 20 de 2ª.

Dentre os 60 relógios equipados com espiral Breguet e balanço compensado, metade apresentou marcha diária inferior a 10 segundos, com média de 4,9 segundos, enquanto a outra metade registrou média de 21,53 segundos. Quanto à regularidade, 6 relógios apresentaram variação de marcha inferior a 2 segundos de um dia para o outro (1,43 segundo em média), enquanto os demais grupos registraram médias entre 2,43 e 4,51 segundos. Na comparação entre as posições horizontal e vertical, 40 desses relógios atrasaram e 20 adiantaram. A média de atraso ficou entre 5,79 e 28,56 segundos. Entre os que adiantaram, 8 tiveram média de 2,61 segundos e os 12 restantes 15,37 segundos.

Outros 26 relógios, também equipados com espiral Breguet, porém com balanço simples, obtiveram resultados consideravelmente inferiores. 16 apresentaram marcha diária média de 14,31 segundos, enquanto os 10 restantes registraram 63,29 segundos. As variações de marcha foram de 8,76 segundos em média para o primeiro grupo e de 20,25 segundos para o segundo. Quanto à variação entre as posições horizontal e vertical, apenas 10 relógios registraram média de 19,73 segundos, enquanto os 16 restantes ultrapassaram 40 segundos.

Os 14 relógios restantes eram equipados com espiral plana e balanço simples. Correspondiam a relógios femininos, construídos segundo um calibre especial no qual não possuíam ponteiro de segundos, e eram ajustados segundo critérios menos rigorosos. A marcha era regulada a 30 segundos, a variação de um dia para o outro podia atingir 20 segundos e a diferença entre as duas posições chegava a 30 segundos.

Quando comparados aos cronômetros de observatório, esses resultados revelam a diferença significativa de desempenho. No concurso do Observatório de Neuchâtel de 1876 (Imagem 1), realizado dois anos antes da abertura do bureau, os relógios de

Imagem 1. Tabela de Cronômetros premiados no concurso de Neuchâtel em 1876. O primeiro relógio da lista, o cronômetro de marinha Ulysse Nardin, não foi considerado nos cálculos comparativos do texto.

bolso premiados registraram marcha diária média de aproximadamente 2,03 segundos, variação média de um dia para o outro de 0,20 segundo e variação entre as posições horizontal e vertical de 0,61 segundo.
Mesmo os melhores relógios civis ainda estavam distantes desses resultados.

Imagem 2. Tabela de resultados do Bureau de Bienne, de 1882-83. Na lista dos fabricantes, vemos nomes de Saint-Imier e La Chaux-de-Fonds.

Segundo o relatório de 1883-84, 1426 relógios já haviam passado pelo bureau desde sua abertura, números que incluíam fabricantes de centros que ainda não tinham seus próprios bureaux e recorriam a Bienne para certificar sua produção, como Saint-Imier e La Chaux-de-Fonds (Imagem 2).

O mesmo relatório também revelava o desejo por padronização, antecipando um movimento que se tornaria inevitável. Nas palavras do próprio relatório:

“Outros centros industriais, Saint-Imier e Chaux-de-Fonds, preparam-se para abrir bureaux semelhantes ao nosso (…). No interesse dos bureaux e do público, é necessário que um entendimento ocorra entre as diversas administrações para chegar à adoção de tolerâncias e taxas uniformes.”

Quando Saint-Imier e Bienne passaram a operar sob um regulamento comum aprovado pelo cantão de Berna em 1884, o sistema deu seu primeiro grande passo em direção à padronização. Elaborado sob parecer das comissões das escolas de relojoaria das duas cidades, o regulamento foi aprovado pelo Conselho Executivo cantonal e revogou o regulamento de Bienne de 1878. Embora passassem a operar sob as mesmas regras técnicas, cada bureau permanecia sob a direção da comissão da escola de relojoaria de sua localidade e publicava seus próprios relatórios anuais.

O regulamento previa 8 dias de observação à temperatura ambiente, metade na posição horizontal e metade na vertical. Mediante solicitação, 2 desses dias poderiam ser realizados a aproximadamente 28 °C, reduzindo o período de observação em cada posição para 3 dias.
Os critérios para a obtenção do boletim de marcha também foram redefinidos. O relógio não poderia apresentar variação de marcha superior a 8 segundos de um dia para o outro na mesma posição, nem variação superior a 25 segundos entre as posições horizontal e vertical. Para os relógios cujo teste de temperatura fosse solicitado, a marcha também não poderia variar mais de 0,5 segundo por grau Celsius.
Um critério de admissão que não existia no regulamento de Bienne de 1878 era a exigência de relógios equipados com balanço compensado, refletindo o aumento do rigor das exigências.

Impresso em várias línguas, facilitando seu uso no comércio internacional, o boletim de marcha trazia no verso um resumo das condições exigidas para sua obtenção. A certificação custava 1,50 fr. por relógio. Nos casos de reprovação, o proprietário era convidado a retirar o relógio mediante o pagamento de uma taxa de 0,20 fr.

O bureau de Saint-Imier começou a operar em 14 de novembro de 1884 e emitiu seu primeiro boletim apenas 11 dias depois, em 25 de novembro.

Enquanto Bienne e Saint-Imier consolidavam sua operação conjunta, La Chaux-de-Fonds começava a estruturar seu próprio bureau de observação. A iniciativa surgiu em junho de 1884, quando a Société d’Émulation Industrielle propôs a criação de um bureau de observação para relógios civis, com o objetivo de fortalecer a competitividade da relojoaria local frente à concorrência estrangeira através da emissão de boletins de observação que distinguissem os relógios de melhor qualidade.
A proposta foi bem recebida pelo Conselho Municipal, que destinou 1.000 fr. ao projeto. Em 15 de novembro de 1884, o bureau iniciou suas atividades em caráter provisório e gratuito, já equipado com instrumentos adquiridos especificamente para esse fim, como estufa, glacière e termômetros de construção moderna.

Desde o início, porém, o método adotado diferenciava-se daquele empregado em Bienne e Saint-Imier. Enquanto os bureaux bernenses realizavam ensaios em apenas 2 posições, La Chaux-de-Fonds passou a adotar observações em até 6 posições, dependendo da classe do relógio: 2 horizontais, com o mostrador para cima e para baixo, e 4 verticais, com a coroa para cima, para baixo, à direita e à esquerda.
Foram definidas cinco classes de relógios. As três primeiras destinavam-se a movimentos com balanço compensado, porém com diferentes níveis de exigência. A quarta reunia relógios com balanço simples e a quinta era específica para relógios equipados com escape cilíndrico. Cada classe possuía seu próprio protocolo de ensaio, variando a duração das observações, o número de posições avaliadas, a realização de testes térmicos e os critérios exigidos para a obtenção do boletim de marcha.

Durante o período experimental, 324 relógios civis foram apresentados ao bureau. Destes, 232 concluíram os ensaios (Imagem 3), enquanto os demais foram retirados pelos depositantes ou

Imagem 3. Distribuição dos 232 relógios observados, indicando as peças submetidas a um ensaio simples, a uma segunda prova comparativa e ao teste em condições reais de uso.

interromperam as observações por parada do movimento.

Imagem 4. Resultados médios dos 25 relógios da 1ª classe em comparação com os limites estabelecidos pelo regulamento.

Entre os relógios da 1ª classe (Imagem 4), a marcha diária média foi de apenas 4,05 segundos. A variação média de um dia

para o outro foi de 0,90 segundo e a variação por grau Celsius de 0,21 segundo. O último critério era a diferença entre as marchas extremas, e o resultado foi de 9,20 segundos em média.
Para verificar a confiabilidade do método, 98 relógios foram submetidos a uma segunda série de observação e 36 passaram por testes em condições reais de uso, sendo utilizados por membros da comissão após o término dos ensaios (Imagem 3).
Para a comissão, os resultados demonstravam que 8 dias de observação em 6 posições eram suficientes para prever, com boa aproximação, a marcha de um relógio civil de primeira qualidade.

O Dr. Adolf Hirsch, diretor do Observatório de Neuchâtel, participou da reunião que deu origem ao projeto e acompanhou de perto sua evolução. No relatório sobre o concurso de cronômetros de 1885, que também tratava do bureau civil de La Chaux-de-Fonds, deixou clara a função que esperava dessa nova instituição. Apoiava a iniciativa, desde que seus certificados fossem destinados “somente a relógios civis”, sem pretender “estender-se aos cronômetros ou relógios de precisão”, e que o bureau trouxesse “o carimbo da autoridade local ou municipal”, distinguindo-se de iniciativas privadas sem reconhecimento oficial.

Essa defesa dos bureaux civis tampouco era recente. Em seu primeiro relatório como diretor do Observatório, em 1862, Hirsch já recomendava a criação de instituições voltadas à observação de relógios civis, proposta que voltou a apresentar em 1876. No cantão de Neuchâtel, entretanto, a ideia levaria mais de vinte anos para se concretizar.

Apesar dos resultados promissores do período experimental, o bureau municipal de La Chaux-de-Fonds só seria oficialmente estabelecido em 1º de junho de 1887, quando seu regulamento entrou em vigor com a sanção das autoridades competentes. Foi justamente nesse intervalo de quase três anos que surgiu uma controvérsia envolvendo a emissão de boletins de marcha. A ausência de uma instituição oficialmente reconhecida abriu espaço para uma iniciativa privada que provocou um amplo debate sobre a autoridade para emitir os certificados.

Em outubro de 1885, a revista parisiense Moniteur de la Bijouterie et de l’Horlogerie publicou um artigo assinado por “Excelsior” defendendo um bureau de observação instalado em La Chaux-de-Fonds sob o nome de Le Progrès. O artigo argumentava que os métodos adotados pelos observatórios, embora apropriados para cronômetros, eram lentos e onerosos para a produção corrente de relógios civis. Como alternativa, apresentava o Le Progrès como um sistema de observação mais adequado às necessidades desse mercado.
O artigo foi reproduzido pelo Horological Journal, em Londres, e rapidamente passou a circular também no mercado britânico e americano.

À primeira vista, a proposta do Le Progrès não parecia incompatível com o movimento que já ocorria na Suíça. Como vimos, Bienne já possuia um bureau desde 1878 e Saint-Imier acabara de inaugurar o seu. Para Hirsch, o problema do Le Progrès não estava em certificar relógios civis, mas em fazê-lo sem o reconhecimento das autoridades cantonais ou municipais, condição que, para ele, comprometia a legitimidade de seus certificados. Ele classificou a iniciativa como “uma caricatura tão charlatanesca quanto interesseira” e destacou que as autoridades haviam recusado apoiá-la oficialmente.

O artigo provocou reações não só em Neuchâtel. A Associação de Fabricantes e Comerciantes de Relojoaria de Genebra respondeu defendendo os observatórios suíços, enquanto Eduard Antoine, diretor do Observatório de Besançon, publicou duas cartas contestando os argumentos apresentados pelo Le Progrès. Entre as críticas, afirmava que seus ensaios duravam apenas 5 dias, tempo insuficiente para avaliar um relógio em 6 posições de maneira eficaz, e advertia para o risco de boletins emitidos por instituições privadas serem confundidos com certificados oficiais. Em resposta posterior, propôs que todos os bureaux privados fossem obrigados a indicar claramente em seus boletins quais eram os observatórios oficialmente reconhecidos, como forma de proteger compradores pouco familiarizados com essas diferenças.

Os responsáveis pelo Le Progrès responderam ponto por ponto e esclareceram que o artigo assinado “Excelsior” expressava opiniões de seu autor e não representava oficialmente a posicão do bureau. Corrigiram ainda a principal objeção técnica, explicando que seus ensaios não duravam 5, mas 10 dias completos de observação, distribuídos entre diferentes posições e provas térmicas, conforme a categoria do relógio. Argumentaram que suas exigências eram comparáveis às das classes intermediárias dos observatórios e que os bureaux então existentes não atendiam plenamente às necessidades da indústria, deixando parte da produção sem um sistema de certificação adequado às suas características. Em diversos aspectos, argumentavam, seus critérios eram comparáveis — e por vezes mais exigentes — do que aqueles empregados pelos bureaux de Bienne e Saint-Imier.
O objetivo declarado do Le Progrès era justamente preencher essa lacuna até que o próprio cantão ou as municipalidades organizassem bureaux oficiais capazes de assumir essa função. Quando isso acontecesse, afirmavam, o Le Progrès perderia naturalmente sua razão de existir.

Imagem 4. Anúncio comercial de Rodolphe Uhlmann, secretário do bureau privado Le Progrès, oferecendo relógios acompanhados de boletins de observação emitidos pelo próprio bureau. O anúncio ilustra a utilização comercial desses certificados privados, um dos pontos centrais da controvérsia iniciada em 1885.

Pantillon e Uhlmann, dirigentes do Le Progrès, anunciaram ainda melhorias em seu próprio sistema, ampliando os ensaios de 10 para 11 dias, com a possibilidade de acrescentar mais 6 dias de testes em condições reais de uso, totalizando 17 dias. Também responderam ironicamente à proposta de Antoine de identificar os observatórios oficiais em seus boletins, dizendo que aceitariam fazê-lo no dia em que um fabricante passasse a imprimir, em

suas próprias faturas, os endereços de seus concorrentes.

Mais do que uma disputa entre instituições, a controvérsia evidenciou a necessidade de definir quem possuía legitimidade para emitir certificados de marcha. Enquanto os observatórios defendiam que a credibilidade de um boletim dependia necessariamente de uma autoridade científica oficialmente reconhecida, o Le Progrès sustentava que uma instituição privada também poderia oferecer garantias confiáveis, desde que adotasse critérios suficientemente rigorosos.

Após quase três anos entre o período de ensaio e a formalização do projeto, o bureau municipal de observação de La Chaux-de-Fonds foi oficialmente inaugurado em 1º de junho de 1887. Seu regulamento confirmou grande parte da metodologia experimentada entre 1884 e 1885, estabelecendo um protocolo de observação mais rigoroso que o adotado pelos bureaux de Bienne e Saint-Imier.

Enquanto nesse dois bureaux os testes duravam apenas 8 dias e as provas de temperatura eram facultativas, em La Chaux-de-Fonds elas passaram a integrar obrigatoriamente o protocolo de observação.
Os relógios passavam a ser observados durante 15 dias, dos quais 6 eram realizados na posição vertical, 6 na posição horizontal com mostrador para cima, 1 dia na estufa, com temperatura entre 28 °C e 31 °C, 1 dia na glacière, entre 1 °C e 4 °C, e um último dia na posição horizontal para verificar a retomada da marcha (reprise de marche) após as provas térmicas.

Para aprovação, a marcha diária média não poderia ultrapassar ±20 segundos, a variação média de um dia para o outro deveria permanecer abaixo de 5 segundos, a diferença entre as marchas nas posições horizontal e vertical não poderia exceder 20 segundos, e a variação térmica deveria permanecer inferior a 1 segundo por grau Celsius. Após os ensaios de temperatura, o relógio ainda precisava retomar sua marcha dentro de um limite de 10 segundos em relação à marcha média observada na posição horizontal.
A emissão do certificado custava 2 fr., enquanto os relógios reprovados ou interrompidos durante os testes estavam sujeitos a uma taxa de 0,50 fr.

No primeiro ano de funcionamento, entre 1887 e 1888, o bureau recebeu 41 relógios, dos quais 30 obtiveram o boletim de marcha (Imagem 5). Entre as principais causas de reprovação destacavam-se as interrupções do movimento durante os testes e o não cumprimento das exigências nas provas de temperatura, indicando que

Imagem 5. Primeiro relatório anual do bureau de La Chaux-de-Fonds (1887–1888), apresentando os resultados do primeiro ano de funcionamento e as principais causas de reprovação dos relógios submetidos aos testes.

a estabilidade da marcha diante das variações de temperatura ainda representava um dos principais desafios para os fabricantes.

A experiência acumulada pelos primeiros bureaux de observação logo revelou que, embora compartilhassem o mesmo objetivo, seus regulamentos ainda diferiam em alguns pontos. Enquanto La Chaux-de-Fonds havia iniciado suas atividades em 1887 com um protocolo mais rigoroso, Bienne e Saint-Imier continuavam operando sob critérios menos exigentes, sobretudo nas provas térmicas.

Essa situação começou a mudar em março de 1889, quando o bureau de Bienne colocou em vigor um novo regulamento, elaborado em comum acordo com a comissão da Escola de Relojoaria de Saint-Imier. O relatório anual daquele exercício passou, por isso, a dividir os resultados em dois períodos: um correspondente ao antigo regulamento e outro ao novo.

As modificações aproximavam os regulamentos de Bienne e Saint-Imier daquele já adotado em La Chaux-de-Fonds. A variação por grau Celsius e a retomada da marcha após o teste de temperatura passaram a integrar os critérios obrigatórios de avaliação da 1ª classe, tornando o regulamento significativamente mais exigente.
Entre julho de 1888 e março de 1889, sob o regulamento antigo, haviam sido depositados 76 relógios em Bienne, dos quais 56 obtiveram boletim de marcha, correspondendo a uma taxa de reprovação de 27%. Após a entrada do novo regulamento, entre março e junho de 1889, foram apresentados 103 relógios, mas apenas 35 receberam o boletim, elevando a proporção de reprovações para 66%.
A adoção de critérios mais severos revelou deficiências que anteriormente permaneciam ocultas.

No exercício de 1889-90, a taxa de reprovação em Bienne caiu para 44%, indicando que fabricantes e reguladores passaram gradualmente a ajustar sua produção às novas exigências.
Foi também nesse relatório que a comissão anunciou uma nova revisão conjunta do regulamento de Bienne e Saint-Imier. Uma subcomissão foi encarregada de elaborar regras mais rigorosas, prevendo o aumento do período de observação, a redução das tolerâncias e um sistema de classificação baseado em pontos proporcionais aos desvios observados nas diferentes provas. Segundo o relatório, essas mudanças colocariam as condições de observação “mais em harmonia com as dos bureaux similares” e assegurariam ainda melhor a regularidade de marcha dos relógios.

Mas antes que esse projeto fosse concluído, uma nova iniciativa alterou seu rumo. A comissão de La Chaux-de-Fonds constatou que diversos fabricantes da cidade preferiam enviar seus relógios aos bureaux de Bienne e Saint-Imier, em vez de utilizar o bureau municipal recém-criado. A causa aparente era que as exigências de La Chaux-de-Fonds eram mais rigorosas, tornando seus certificados mais difíceis de obter. Para a comissão, entretanto, bureaux criados para atestar a qualidade dos relógios civis não deveriam concorrer entre si oferecendo diferentes níveis de exigência, mas garantir ao mercado os mesmos padrões de avaliação. Com isso, delegou três de seus membros para negociar um regulamento comum com os demais bureaux.

No exercício de 1890–1891, Bienne informou que a comissão da Escola de Relojoaria de La Chaux-de-Fonds havia solicitado que as negociações passassem a envolver oficialmente os três bureaux, com o objetivo de estabelecer um modo de funcionamento uniforme. O mesmo fato foi registrado, quase nos mesmos termos, pelo relatório de Saint-Imier, sinalizando que a busca por um regulamento comum deixava de ser uma iniciativa bilateral para tornar-se um esforço conjunto entre as três instituições.

A aproximação técnica entre Bienne, Saint-Imier e La Chaux-de-Fonds criou as condições para uma iniciativa mais ambiciosa de estabelecer um regulamento comum para os três bureaux de observação. A ideia vinha amadurecendo havia alguns anos e, em 1890, as negociações passaram a envolver representantes das três instituições. Os delegados chegaram a elaborar um projeto comum, aceitando concessões recíprocas para uniformizar as exigências de observação.

O acordo, porém, acabou não sendo implementado.
O relatório do bureau de La Chaux-de-Fonds referente ao exercício de 1891-1892 explica que a autoridade cantonal de Neuchâtel manifestou o desejo de que nenhuma alteração fosse feita ao regulamento que ela própria havia sancionado. Já a comissão de Saint-Imier descreve outro ponto. Segundo eles, as três escolas de relojoaria ainda não haviam conseguido chegar a um acordo definitivo pois a solução dependia do boletim de marcha utilizado por Bienne e Saint-Imier que, ao que tudo indica, La Chaux-de-Fonds não podia adotar. Como consequência, o projeto foi abandonado.

Imagem 6. Tabela de resultados do bureau de Saint-Imier, de 1891-92. Vemos fabricantes de outras localidades, principalmente de La Chaux-de-Fonds.

Os relatórios também continuavam revelando intensa circulação de fabricantes entre os bureaux. Empresas sediadas em La Chaux-de-Fonds depositavam relógios em Saint-Imier (Imagem 6), enquanto fabricantes de Bienne recorriam a La Chaux-de-Fonds, demonstrando que a escolha do bureau

ainda dependia das exigências adotadas por cada um.

Embora a tentativa de criar um regulamento único não tenha prosperado, ela aproximou ainda mais os critérios utilizados pelos três e preparou o terreno para novas revisões regulamentares.

Sem conseguir chegar a um entendimento com La Chaux-de-Fonds, Bienne e Saint-Imier decidiram prosseguir com a unificação que estava ao alcance de ambos.
Em 11 de março de 1893, o Conselho Executivo do cantão de Berna promulgou um novo regulamento conjunto para os dois bureaux, que entrou em vigor em maio do mesmo ano. O relatório de Saint-Imier deixa claro que a revisão tinha como objetivo específico tornar o regulamento bernense mais semelhante ao utilizado em La Chaux-de-Fonds.

O novo texto definia duas classes de testes. A 1ª exigia 15 dias de observação, sendo 7 na posição vertical à temperatura ambiente — 1 dia com a coroa à esquerda, 1 dia com a coroa à direita e 5 dias com a coroa para cima — e 8 dias na posição horizontal com o mostrador para cima — 4 dias à temperatura ambiente, 1 dia à temperatura de aproximadamente 30 °C, 1 dia novamente à temperatura ambiente para verificar a retomada de marcha, 1 dia na glacière e mais 1 dia à temperatura ambiente para uma nova verificação da retomada de marcha.

Para a 2ª classe, eram exigidos 10 dias de observação, sendo 6 na posição vertical — nas mesmas disposições da 1ª classe, mas com 1 dia a menos na posição com a coroa para cima — e 4 dias na posição horizontal com o mostrador para cima, todos à temperatura ambiente.

As condições para obtenção do boletim de marcha de 1ª classe eram:

a) A marcha diária média, nas posições vertical com a coroa para cima e horizontal, à temperatura ambiente, não poderia exceder ±10 segundos;
b) A variação média de um dia para o outro, nas posições vertical com a coroa para cima e horizontal, à temperatura ambiente, não poderia exceder ±5 segundos;
c) A diferença entre as marchas médias nas posições horizontal e vertical, à temperatura ambiente, não poderia exceder 20 segundos;
d) O erro de compensação térmica não poderia exceder 0,5 segundo por grau Celsius;
e) Nas posições verticais, coroa à esquerda e à direita, a marcha diária não poderia diferir mais de 20 segundos da marcha média obtida com a coroa para cima (novo);
f) A diferença entre duas marchas diárias consecutivas, nas posições vertical com a coroa para cima e horizontal, à temperatura ambiente, não poderia exceder 10 segundos (novo);
g) Após as provas térmicas, o relógio deveria retomar sua marcha dentro de um limite de 10 segundos em relação à marcha média observada na posição horizontal.

Para a 2ª classe, permaneciam as mesmas exigências, com exceção das provas térmicas, que não eram realizadas (critérios d e g).

Relógios cujos resultados permanecessem abaixo da metade desses limites recebiam ainda a distinção de “Boletim de marcha particularmente satisfatório” (Bulletin de marche particulièrement satisfaisant).

Com o novo regulamento, os bureaux de Bienne e Saint-Imier também alteraram a forma de classificar os resultados, passando a atribuir uma pontuação para cada relógio de acordo com seu desempenho nos testes realizados (Imagem 7).

Imagem 7. Tabela de resultados do bureau de Bienne, de 1893-94. Nas últimas quatro colunas podemos ver o método de pontuação.

O sistema era dividido em três critérios para os boletins de 1ª classe — variação média de um dia para o outro (b), diferença entre as marchas médias nas posições horizontal e vertical (c) e erro de compensação térmica (d) — que juntos somavam um máximo de 100 pontos. Nos boletins de 2ª classe, como não havia provas térmicas, a pontuação máxima era de 80 pontos.

A distribuição dos pontos seguia as seguintes fórmulas:

• Variação média de um dia para o outro (limite ±5 segundos)

Pontos=40(variação média×8)\text{Pontos} = 40 – (\text{variação média} \times 8)

• Diferença entre as marchas nas posições horizontal e vertical (limite 20 segundos)

Pontos=40(diferença×2)\text{Pontos} = 40 – (\text{diferença} \times 2)

• Erro de compensação térmica (limite 0,5 segundo por grau)

Pontos=20(erro×40)\text{Pontos} = 20 – (\text{erro} \times 40)

Assim, um relógio sem qualquer desvio receberia a pontuação máxima em cada critério, enquanto a pontuação diminuía proporcionalmente à medida que os desvios aumentavam.

Em 14 de novembro de 1900, o Conselho de Estado de Neuchâtel sancionou o regulamento do bureau de observação de Le Locle, ampliando o número de bureaux de observação em funcionamento na Suíça.

Seu regulamento estabeleceu três classes de relógios, com exigências progressivas, seguindo uma estrutura diferente da adotada pelos demais bureaux, que utilizavam duas classes — ou apenas uma, no caso de La Chaux-de-Fonds.
A classe A previa 21 dias de observação — o protocolo mais longo encontrado até então entre os bureaux — distribuídos entre 5 posições, além das provas na estufa e na glacière. A classe B reduzia o período para 15 dias, mantendo as provas térmicas, mas limitando as observações a apenas 2 posições, enquanto a classe C previa apenas 8 dias de testes, também restritos a 2 posições, porém sem provas de temperatura.

Uma característica replicada nesse regulamento foi a proibição da gravura chronomètre no movimento ou no mostrador dos relógios depositados. Introduzida em La Chaux-de-Fonds em 1895, a medida passava agora a fazer parte também das normas do bureau de Le Locle.

O primeiro relatório publicado registrou a emissão de 1.049 boletins de marcha. À primeira vista, o número impressiona, mas praticamente todo esse volume veio da manufatura Georges Favre-Jacot & Cie. — a futura Zenith —, responsável por 1.020 dos certificados emitidos naquele exercício para relógios produzidos por ocasião do Festival Federal de Tiro de Lucerna.
No exercício seguinte, 1901-1902, foram depositados apenas 279 relógios no bureau, dos quais 245 obtiveram boletim de marcha. A maior parte das certificações concentrou-se na classe C, com 218 boletins, enquanto apenas 12 relógios alcançaram a classe A e 15 a classe B.

Ao longo da década de 1890, os quatro bureaux de observação aproximaram gradualmente seus regulamentos, seus métodos de ensaio e critérios de avaliação. A tentativa frustrada de unificação no início da década acabou inaugurando um período de convergência técnica que prepararia o caminho para um regulamento comum.

Os relatórios publicados durante a década de 1890 permitem acompanhar essa aproximação. Bienne e Saint-Imier reformularam seus regulamentos buscando aproximá-los daquele utilizado em La Chaux-de-Fonds. Enquanto isso, o bureau neuchâtelois aperfeiçoava continuamente seus próprios critérios, culminando em um novo regulamento em 1895, que ampliou o período de observação para 18 dias e refinou as tolerâncias exigidas para a obtenção do boletim de marcha. Embora os caminhos adotados não tenham sido idênticos, todos buscavam desenvolver métodos cada vez mais rigorosos e comparáveis para avaliar a qualidade dos relógios civis.

Em 3 de março de 1904, o Conselho Geral de La Chaux-de-Fonds aprovou um novo regulamento para seu bureau de observação. Contudo, ele não entrou imediatamente em vigor. Sua aplicação foi suspensa para não comprometer as negociações que buscavam estabelecer um texto comum para os quatro bureaux.
Em seguida, ocorreu em Saint-Imier uma reunião entre os representantes dessas instituições, e o regulamento recém-elaborado por La Chaux-de-Fonds foi aceito como base para o novo regulamento unificado, aprovado em 8 de julho de 1904. Pela primeira vez um único regulamento passava a reger simultaneamente os bureaux oficiais de Bienne, Saint-Imier, La Chaux-de-Fonds e Le Locle, reunindo sob as mesmas normas instituições pertencentes aos cantões de Berna e Neuchâtel.

Do ponto de vista técnico, o novo regulamento consolidava os aperfeiçoamentos introduzidos ao longo dos anos. As provas da 1ª classe passaram a durar 15 dias, distribuídos entre 4 posições de observação — horizontal com mostrador para cima e vertical com a coroa para cima, à esquerda e à direita — e testes de temperatura na estufa e glacière, ambos com retorno à temperatura ambiente para verificação da retomada de marcha.
Alguns dos 7 critérios para obtenção do boletim de marcha tornaram-se mais rigorosos. A variação média de um dia para o outro, nas posições vertical com a coroa para cima e horizontal, à temperatura ambiente, teve seu limite reduzido para ±4 segundos; a diferença entre as marchas médias nas posições horizontal e vertical, à temperatura ambiente, teve seu limite reduzido para 10 segundos; e a retomada de marcha, após os testes de temperatura, em relação à marcha média observada na posição horizontal, passou a admitir diferença máxima de 5 segundos. Foi introduzido ainda um novo critério: a maior diferença entre duas marchas consecutivas nas posições horizontal e vertical com a coroa para cima, à temperatura ambiente, que não poderia ultrapassar 5 segundos.
A 2ª classe, com 10 dias de observação, apesar de manter critérios menos rigorosos, também incorporava provas térmicas obrigatórias.
Para os relógios com mecanismos complicados e também para mecanismos que não excedessem 30 milímetros de diâmetro, havia uma tolerância de 25% acima dos limites fixados para a 1ª classe.

Além do endurecimento das exigências técnicas, o artigo 11 estabeleceu a padronização dos boletins de marcha para todos os bureaux, diferenciando-os apenas pela forma e pela cor conforme a classe.

Mas a unificação não se concretizou instantaneamente na prática, apesar da importância desse marco. Os relatórios do exercício de 1904-1905 mostram que a transição ainda estava em andamento. Saint-Imier registrou que o novo regulamento permanecia sem aplicação porque os quatro bureaux ainda discutiam detalhes práticos, como o modelo definitivo dos boletins de marcha.
No exercício seguinte, o relatório de Le Locle afirmava que o número de relógios observados segundo o novo regulamento ainda era reduzido devido ao período de transição, durante o qual os regulamentos antigo e novo coexistiam, mas elogiava o texto recém-adotado por reduzir a duração dos ensaios “ao mínimo necessário”, preservando ao mesmo tempo a abrangência das provas. Destacava ainda a praticidade e a apresentação dos novos boletins de marcha, prevendo que seriam amplamente utilizados pelos fabricantes. Nos anos que se seguiram, os relatórios já faziam referência ao regulamento unificado como algo plenamente incorporado à rotina dos bureaux.

O regulamento de 1904 representava a consolidação de um processo iniciado em 1878 com o modesto regulamento de Bienne. Ao longo de 26 anos, os bureaux de observação evoluíram de iniciativas municipais independentes para uma rede tecnicamente coordenada entre dois cantões suíços, compartilhando critérios de ensaio, boletins padronizados e uma regulamentação comum. Essa unificação não eliminou completamente as diferenças administrativas entre os bureaux, nem significou o fim de sua autonomia institucional — questões que ainda voltariam a ser discutidas nas décadas seguintes. Mas estabeleceu, pela primeira vez, uma linguagem técnica comum para a certificação de relógios civis na suíça, criando a base sobre a qual o sistema continuaria a evoluir durante o século XX.


Texto e imagens

Journal Suisse d’Horlogerie. Diversas edições consultadas.

Sites

INSTITUTO PORTUGUÊS DE RELOJOARIA. COSC. Disponível em:
https://www.institutoportuguesderelojoaria.pt/post/_cosc


4 respostas a “O Certificado de Cronômetro – Parte 2: A origem dos Bureaux de Observação”

  1. Avatar de Elaine

    Que rico material! Parabéns!

  2. Avatar de Anderson Alexandre Neves da Silva

    Magnífico texto! Parabéns, meu irmãozinho!

    1. Avatar de Guilherme Guimarães

      Muito obrigado, meu querido!!

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